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Protocolo Volpone, e o que será de nozes?

Luiz Carlos Merten

08 de novembro de 2020 | 12h03

Com tanta coisa rolando – final da Mostra, repescagem, entrevistas, estreias -, nem tive tempo de dar conta do meu retorno ao teatro. Em março, recém chegado da Berlinale – com direito a alguns dias em Paris -, cheguei a comprar o ingresso para Língua Portuguesa, que deveria ter estreado no dia 19 daquele mês,no Sesc Consolação. Achava que a montagem de Felipe Hirsch seria a primeira num eventual retorno do teatro em São Paulo. Não foi. Assisti esta semasna a Protocolo Volpone, com a Cia. Bendita Trupe, no estacionamento do Teatro Arthur Azevedo. Ben Jonson! Volpone já havia inspirado um filme de Joseph L. Msankiewicz, Charada em Veneza, mas que se inspirava tanto na peça como em Frederick Knott. Mr. Fox of Venice. Gostei de ter visto, da experiência mais que do resultado. Confesso que tenho pensado muito no pós-pandemia. Eu, que sempre fiz questao de ver os filmes em salas, dispensando links, me acostumei com o streaming. Durante esses longos oito meses mudei minha rotina, trabalhando de casa. Tentei ver algumas peças que viraram virtuais, e me perguntava o que era aquilo- nem teatro, nem cinema, embora a câmera, gravando a encenação e a eternizando, substituísse meu olho na plateia. O que é, o que é? Vi alguns filmes no drive-in, mas confesso que chorei ao fim do primeiro ato de Tenet – o ataque à Ópera de Tallinn – quando vi o Christopher Nolan no Imax do JK Iguatemi. O cinema de Nolan mobiliza recursos, exige aquela tela, aquele som. Fiquei pensando como seria ver Tenet no note – com fruição zero. Tem gente que nem liga mais para isso. Só quer saber da história. Como a de Tenet está longe de ser linear, com todos aqueles palíndromos e viagens no tempo, imagino que a sensação de confusão permaneça com o espectador. Desde quinta tem um cara aqui na minha casa. Caiu o reboco num canto da sala, surgiu uma rachadura de infiltração na janela e rle veio cuidar desses detalhes, e também para pintar o apartamento inteiro. À mudança de mídia – não é a mesma coisa ver filme no cinema e no laptop, pelo menos para mim -, somam-se o barulho, os móveis cobertos como proteção, etc. É muita interferência. Não sei como estão os números de Tenet nos cinemas, mas nos EUA o filme não foi bem. Estava em Cannes, 2000, quando o festival premiou Dançando no Escuro e pegou carona no filme de Lars Von Trier para discutir, num grande seminário, as novas tecnologias. Já se previa naquele momento – há 20 anos – a mudança de suporte, e a pergunjta era – se o filme deixar de ser visto no cinema continuará sendo ‘cinema’? Nós, o público, que nos acostumamos a ver os filmes em casa, no streaming, voltaremos às salas? O teatro talvez seja mais complicado ainda, com a interferência da câmera na reprodução das montagens. Como José Fernando Peixoto de Azevedo estará (vi)venfo todo esse processo, ele wue assinou talvez as maiores montagens feitas no Brasil, nos últimos anos, as dos textos de Plínio Marcos (Navalha na Carne Negra) e Jeam-Paul Sarte (As Mãos Sujas)? Volto a Volpone – deu cacofonia. Já havia ouvido falar na experiência de isolamento da montagem, com os atores representando de máscara e o público fechado em cabines de plástico. A atualidade de Ben Jonson – Jorge Furtado já discutira a imprensa tomando como base outro texto do dramaturgo, em O Mercado de Notícias. A Bendita Trupe agora foca no mal da época. A comédia da morte. Volpone simula a própria morte para desmascarar os parasitas que gravitam em torno dele, interessados em herdar sua fortuna. Conseguirão? Não existe mais bem comum, sonhos comunitários, todo mundo só quer saber do seu quinhão. É Veneza no século 17 ou o Centrão em Brasília, 2020, dando sustentação ao (des)governo Bolsonaro? Confesso que tive um estranhamento ao começar a ver Protocolo Volpóne. As máscaras fazem parte do teatro. Mas as máscaras produzem um efeito colateral. Jogam para baixo, de certa forma abafam, as vozes do elenco. Não existe mais a riqueza da modulação. (Fiquei pensando como minha querida Francesca Della Monica, que prepara o vocal dos atores nas mmontagens de Gabriel Villela, resolveria o problema.) Demorei a me acostumar, mas quando isso ocorreu curti mais o tom farsesco da encenação da diretrora Johana Figueiredo. Saí do teatro da Mooca com a mesma sensação que tive após assistir, e assistir de novo, a Tenet. Qual será o futuro do teatro, após a pandemia? O do cinema – dos blockbusters -, em plena era do streaming? O teatro tem milhares de anos, há de sobreviver. O cinema, comparativamente, tem uma história de 125 anos. Pergunto-me se já enfrentou um desafio assim? O que será de nozes? Eu, que sou rato de redação, de cinemateca, de cinrema, (re)formatei-me para trabalhar em casa, ver filmes em casa. Até comprei uma TV smart, maior. A capacidade humana de adaptação – e evolução – é extraordinária. Incluo-me nessa.

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