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Programa duplo com Spielberg e Randall Wallace

Luiz Carlos Merten

10 de junho de 2019 | 20h00

Fiz ontem um belo programa duplo na TV paga. Cavalo de Guerra, o mais fordiano dos filmes de Steven Spielberg, que emendei com O Homem da Máscara de Ferro, de Randall Wallace. Duas adaptações – o filme de Spielberg baseia-se no livro infantil de Michael Morpurgo, que já havia sido vertido para o palco, e eu tive o privilégio de assistir à peça no teatro do Lincoln Center, em Nova York. Os cavalos eram máscaras de papel, uma coisa linda. Haviam se passado 13 anos de O Resgate do Soldado Ryan, que lhe valeu o segundo Oscar de direção – após o de A Lista de Schindler – e Spielberg voltou ao tema da guerra. A 2.ª Guerra – campo de concentração, o Holocausto, o desembarque dos aliados na Normandia. Agora, a 1ª Guerra, a Cavalaria, a trincheira. Albert toma-se de amores por Joey, o cavalo que seu pai vende para o Exército inglês. Albert, Jeremy Irvine; a mãe, Emily Watson; o pai, Peter Mullan. O pai bebe, a mãe é o esteio da casa e o fiolho arranca pedras com o arado, e Joey, para tornar a terra produtiva. Pobreza, dureza. Albert segue Joey na guerra e o cavalo, depois de puxar canhões até a exaustão, foge pela trincheira e vai cair numa terra de ninguém entre os dois Exércitos. Enreda-se no arame farpado e é salvo por dois soldados inimigos, que fazem uma trégua para tentar desenrolá-lo. As cenas nas trincheiras são de um realismo brutal, mas Spielberg não abre mão do lirismo. Joey está ferido, Albert está cego, temporariamente, e o garoto, pressentindo a presença do ‘seu’ cavalo, o chama com um assobio – em bom gauchês, não consigo dizer assovio. E ainda tem a volta para casa, o tema por excelência do cinema de Hollywood – com a segunda chance -, que o cineasta filma em silhueta, contra céus vermelhos, tormentosos, que me evocaram …E o Vento Levou. John Ford, a grandeza dos derrotados. Gosto demais do filme. Lenda ou realidade, houve, na França do século 17, um misterioso prisioneiro que foi mantido, durante mais de 30 anos, isolado em diferentes fortalezas, incluindo a Bastilha. Tinha sempre o rosto coberto por uma máscara de veludo, e foi, senão me engano, Voltaire quem teceu a hipótese de que seria o irmão gêmeo de Luís XIV, que, dessa forma, o mantinha distante do trono. Alexandre Dumas ficcionalizou a hipótese e a transformou numa aventura de seus (já velhos) mosqueteiros. Para dramatizar ainda mais, transformou a máscara de veludo em ferro, tecendo a trama de um Luís XIV absolutista e despótico, divorciado das necessidades de seu povo e centrado nos prazeres que lhe estariam assegurados por direito divino. Dumas imaginou como, inteirados do crime, Athos Porthos e Aramis, insurgem-se contra D’Artagnan com um plano mirabolante para substituir o rei. Havia visto o filme já umas quantas vezes na TV paga – Leonardo DiCaprio está ótimo, fazendo os dois papéis -, mas confesso que somente ontem me caiu a ficha sobre como o diretor aborda o tema. Na prisão, ofuscado pela luz do sol, Philippe, com o rosto encoberto, namora a Lua e o filme é sobre a transformação do homem lunar em Rei Sol, um rei mais justo, e amado por seu povo. Existe muita liberdade histórica nessa abordagem, mas, como ficção, como aventura, é muito bom. Como homem de confiança de Mel Gibson Wallace escreveu Coração Valente e dirigiu Fomos Heróis. Em O Homem da Máscara de Ferro beneficia-se de um elenco que inclui, além de DiCaprio, Gabriel Byrne, John Malkovich, Jeremy Irons, Anne Parrilaud, Peter Sarsgaard e Judith Godrèche. É pouco? Claro que não. Passei bons momentos revendo The Man in the Iron Mask.

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