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Pro céu ele foi, Leonardo Villar

Luiz Carlos Merten

05 de julho de 2020 | 12h16

Havia feito no outro dia o texto dobre O Pagador de Promessas nos meus ‘clássicos’. Nem me dei conta, o que o Jornal Nacional me lembrou ontem, que Anselmo Duarte teria feito 100 anos em abril. No livro com a longa entrevista que me deu, naquelas conversas de fim de semana em Salto, Anselmo havia me contado como o produtor Aníbal Massaini buzinava no seu ouvido para ter o Mazaropi como Zé do Burro, mas ele queria o Leonardo Villar, que vira no teatro, na montagem da peça de Dias Gomes por Flávio Rangel. Leonardo Villar! Do núcleo principal do filme só estão vivos o Othon Bastos e a Glória Menezes. Leonardo Villar morreu na sexta, 3, a poucos dias de completar 97 anos. Ultrapassou Anselmo, que morreu com 89, em 2009. Depois de escrever o texto sobre O Pagador, fui rever o filme, a cena em que Zé do Burro entra na igreja nos braços do povo, amarrado à sua cruz. O plano artístico de Anselmo – a câmera rente ao chão, em contraplongê, a cruz que passa por cima e o movimento de 180 graus para captar a entrada triunfal. Anselmo orgulhava-se muito do plano, que conseguiu graças à genialidade do fotógrafo Chick Fowle. E o Leonardo. Durante todo o tempo ele está ali se despedaçando, balbuciando as palavras, suas queixas. Doomed! Um camninho sem volta. Ao rever o filme fiquei pensando no Mazaropi. Com todo o respeito pelo jeca, seria o horror. Todo mundo lembrou a carreira de Leonardo Villar, seus sucessos na TV e no teatro. No cinema, ele não fez muita coisa, mas é parte da história. O Pagador de Promessas, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, a versão de Roberto Santos. P’ra o céu eu vou, nem que seja a porrete! Mas não sei se sou só eu. Não posso deixar de lembrar de Leonardo Villar como o Correia de Ação Entre Amigos, de 1998. Beto Brant! Correia, o torturador da ditadura, um Coronel Ustra ficcional. Ustra, o Dr. Tibiriçá, ídolo do coiso. Jesus, manso e humilde. Correia torturou os amigos, matou a mulher de um deles e agora o grupo está de volta, para se vingar. Leonardo Villar se adaptava a cada personagem. Interiorizava-os. Foi o Lampíão de Carlos Coimbra, que também biografei para a Coleção Aplauso. As longas conversas com o Coimbra no modesto apartamento dele, num prédio da 9 de Julho. O homem responsável por alguns dos maiores sucessos de bilheteria (os maiores?) do cinema brasilerito nos anos 1960 vivia numa quitinete atulhada de coisas. Descobri outro dia numa gaveta velhas fotos que ele me havia emprestado para o livro. Fui pesquisar a carreira de Leonardo. Não vi nenhnuma de seus novelas. Não o vi no palco – sua carreira foi muito rica nos anos anos 1960 e 70, até o início dos 80, quando eu vivia em Porto Alegre. Depois, voltou nos 2000, mas não vi A Moratória – por que? Leonardo Villar interpretou Shelagh Delaney (Um Gosto de Mel, cheegui a pensar no Tony Richardson como um possível Clássico), Arthur Miler (Um Panorama Visto da Ponte e A Morte do Caixeiro Viajante), Strindberg (Senhorita Julia). Consta na internet até um Tennessee Williams, Gata em Teto de Zinco Quente, de 1956. Quem montou, e com quem? Leonardo era jovem. Poderia ser o Rick, ou o irmão. Quem fazia Maggie the cat?