Presença brasileira
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Presença brasileira

Luiz Carlos Merten

11 de fevereiro de 2014 | 08h48

BERLIM – Pode haver amor à primeira vista quando não existe visão? É a pergunta que Daniel Ribeiro faz em seu longa exibido no Panorama. Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, rebatizado como The Way He Looks, estende o curta do diretor sobre o garoto cego. Se a aceitação da (homos)sexualidade já é difícil num mundo que permanece homofóbico, apesar da correção política, imagine alguém especial, qualquer que seja sua deficiência? Por mais que hoje em dia se conteste a mania de aplaudir de pé nos teatros – se fosse pelas montagens de meu amigo Gabriel Villela, tudo bem, mas qualquer coisa? -, fiquei emocionado ao ver jornalistas de todo o mundo aplaudindo o filme do Daniel. Será distribuido pela Vitrine Filmes. Deve entrar no final de março. O garoto cego tem a amiga na escola. Sofre bullyng dos colegas. Chega esse novo garoto, com os caracóis de seus cabelos. A cena do banho é qualquer coisa. O protagonista não vê o corpo do colega por quem está comecando a sentir uma perturbação, mas o outro vê alguma coisa que mexe com ele, e muito. Com discrição, elegância, e grandes interpretações de seu elenco jovem, Daniel Ribeiro toca mais fundo na diferença que qualquer Tatuagem (eu acho). O amor, dizia François Truffaut em seus filmes, é um embate permanente entre o gestyo impulsivo e a palavra consciente. Daniel Ribeiro usa esses dois personagens para refletir sobre a totalidade do amor e do desejo. Um vê, o outro enxerga mais fundo (na alma?) Guardem a data, fim de março. Será esse o filme a ultrapassar o marco de quase 100 mil espectadores que a Vitrine fez com O Som ao Redor? Tomara que seja. Sai da sessao de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, na segunda à noite, comi alguma coisa correndo e lá me fui para ver o Castanha, de Davi Pretto, que nem sabia que estava aqui em Berlim. O quarto filme brasileiro – gaúcho – está no Forum. Eduardo Valente me disse que ia gostar. E gostei. É o terceiro dos quatro filmes brasileiros da seleção, ou das seções, a abordar homossexualidade. O imaginário gay. Todo tratam disso, mas não só disso, que fique claro. Castanha é um performer, e um sobrevivente. Em Porto Alegre, veste-se de mulher, comanda shows de bofes e faz o que é definido como teatro caricato. Documentário nos limites da ficcao, ficção documentária, Castanha tem cara de Tiradentes. E o personagem, como me soprou o Valente, é muito forte. Tem algo de A Vizinhanca do Tigre, não só na mistura de gêneros, mas na ideia da representação, da persona que o personagem constroi para si. Tenho de ir agora correndo para a sessão de Praia do Futuro. Mas tenho de registrar duas coisas – 1) morreu Virginia Lane. A vedete do Brasil. Aquelas coxas fartas atiçaaram mais libidos que o beicinho de Brigitte Bardot nos anos 1950. Sas-sa–ri-can-do. Eh o que ela cantava em Tudo Azul, de Moacir Fenelon, lembram-se? E 2) Alain Resnais. Não posso dizer que me decepcionei com Life of Riley, o titulo internacional de Amar, Beber, Cantar porque o filme, na sua teatralidade assumida, é divertido, inteligente. Só não é um grande Resnais, à altura de seus grandes clássicos, que são,  para mim, Hiroshima – ouvi dizer que Mino Carta detesta o filme; como pode ser isso? Depõe contra ele -, A Guerra Acabou, Providence, Meu Tio da America. Lá vou eu para o Karin. E, na sequência, nem almoçar vou, porque tenho entrevistas com Sabine Azéma e Sandrine Kiberlain, do Resnais, justamente.

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