Prédios têm alma?
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Prédios têm alma?

Luiz Carlos Merten

12 de fevereiro de 2014 | 22h20

BERLIM – Devia ter seguido o conselho do meu amigo Avellar (José Carlos). Como tive de abrir mão ontem à noite da sessão de imprensa do filme chinês da competição – Bai Ri Yan Huo/Black Coal, Thin Ice -, senti-me na obrigação de vê-lo hoje na galas, mesmo que, no horário, estivesse morrendo de vontade o documentário sobre Nick Cave que venceu Sundance, 20000 Days on Earth. Avellar me disse que fosse ver o Cave. A gente se arrepende do que não faz. Depois que Jia Zhang-ke fez história retratando explosões de violência na China contemporânea – e mesmo assim os coleguinhas preferiram premiar aquele filme mexicano na Mostra, só pode ter sido por birra -, o que faltava era o noir de Diao Yinan sobre ex-policial que virou segurança e investiga série de mortes. O detetive privado, a femme fatale, poderia ser divertido identificar os típicos personagens do noir, mas o filme é uma bobagem. Vou tentar ver amanhã o Nick Cave, embora, além da programação do dia – e tem o Yoji Yamada, The Little House, à noite -, já tenha pegado ingresso para ver Sebastiane, o primeiro Derek Jarman, na homenagem, que o festival presta ao cineasta, no 20.º ano de sua morte. Por falar em homenagem, só minha devoção a Yamada me impede de pegar ingresso para a homenagem a Ken Loach, que recebe amanhã seu Urso de Ouro especial de carreira e, na sequência, passa Rolling Stones, o filme dele, não algum show da banda. Nenhum filme do dia foi particularmente brilhante. O segundo argentino da competição, La Tercera Orilla, de Celina Murga, é melhor que o primeiro – Histórias del Miedo – mas não chega a ser grande coisa, o que me leva a crer que o encontro que houve aqui para discutir o cinema argentino, ao invés da criatividade, deveria ter discutido a ausência de. O que está havendo com nossos amigos portenhos? Estão se guardando para Cannes, aposto. Já é uma da manhã, aqui, e tenho de levantar cedo para ver mais um chinês, No Man’s Land. Mas não posso deixar de registrar que passei momentos felizes entrevistando Karim Ainouz, Wagner Moura e Jesuíta Barbosa. Uma coisa bacana do cerimonial de Berlim é que as equipes, quando chegam para a gala dos filmes, no Palast, autografam fotos gigantescas que ficam ornamentando as paredes. Comentei com Jesuíta que ele está com cara de assustado na sua foto, mas é que as coisas estão ocorrendo muito rápido com esse rapaz. Tatuagem, a minissérie de George Moura na Globo – Amores alguma coisa -, Praia do Futuro em Berlim. O terceiro capítulo do filme de Karim, Um Fantasma Que Fala Alemão, é obra-prima. Tem o mar sem água (vocês vão descobrir o que é) e a briga dos irmãos, quando Jesuíta/Airton diz coisas duras para Wagner Moura/Donato, que o abandonou. Jesuíta, o próprio Wagner reconheceu, é f… Cada vez que penso em Praia do Futuro gosto mais. Disse a Karim que ele fez um filme de viado macho. Depois de rir, ele concordou, e acha importante que se faça um filme com esse perfil, que não é o do gay mulherzinha. Não vai nisso nenhum tipo de preconceito, só uma observação, e um reconhecimento. E ainda tem a trilha de Praia do Futuro. Aline – Et je crié Aline/Pour qu’ elle revienne… Quando decidiu que queria a música, Karim bateu pé. Direitos de músicas são caros, mas ele fez saber aos produtores – do Brasil e da Alemanha – que, sem Aline, não haveria filme. Poderoso o cabra! Para encerrar, Karim assina um dos episódios de Cathedrals of Culture. Foi o melhor filme que vi hoje – em episódios e 3-D. O que os prédios nos diriam, se falassem? Karim filma o Beaubourg, em Paris. Bonito. Mas os melhores – meu lado arquiteto veio com tudo – são os episódios de Robert Redford (o Salk Institute, na Califórnia) e Margret Olin (a Ópera de Oslo). Prédios têm alma – só o grande cinema para nos dar conta disso.

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