As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Preciosidades

Luiz Carlos Merten

05 de maio de 2014 | 13h04

No dia dos autógrafos de meu amigo Dib Carneiro, quando ele lançou seu novo livro sobre teatro infantil – Já Somos Grandes -, não resisti a ‘inspecionar’ a seção de DVDs da Livraria da Vila, nos Jardins. Terminei comprando um monte, mas até me havia esquecido, pois emendei logo a viagem para o Recife, para o Cine PE, com paradas no Rio e em Salvador para visitar sets de filmagens. Ontem, finalmente, desembrulhei o pacote e agora estou aqui em casa namorando as capas desses DVDs e viajando nas lembranças. Olhem que seleção – O Sal da Terra, de Herbert Biberman; No Rastro da Bruxa Vermelha, de Edward Ludwig; Hatari!, de Howard Hawks; Pérfida, de William Wyler; Stella Dallas, de King Vidor; High Sierra/Seu Último Refúgio, de Raoul Walsh; O Trovador Kerib, de Sergei Paradjanov; e Nenhuma Mulher Vale Tanto, de Gordon Douglas. Sou louco pelos westerns de Gordon Douglas – Rio Conchos acima de todos, mas também O Revólver de Um Desconhecido e o remake de Stagecoach, que amo -, mas me encantam Sílvia e Nenhuma Mulher Vale Tanto/The Iron Mistress. A amante em questão é a faca de Alan Ladd ou a sexy Virginia Mayo, que em New Orleans, no século 19, usa seu poder de sedução sobre os homens como uma arma igualmente mortal de dominação e ascensão social? Nicholas Ray dizia que o cinema é a melodia do olhar, mas quem levou a definição ao pé da letra (radicalizou?) foi Douglas, o menos reconhecido dos grandes autores de Hollywood. Bette Davis faz outra manipuladora em Pérfida, que William Wyler adaptou de uma peça de Lilian Hellman, com roteiro da autora. Lilian e o companheiro, o também escritor Dashiell Hammett, bateram-se contra o macarthismo e toda a equipe de Sal da Terra – o diretor Biberman, o roteirista Michael Wilson, o produtor Paul Jarico, os fotógrafos Leonard Stark e Stanley Meredith, o compositor Sol Kaplan – era de blacklisteds. Todos entraram para a lista negra da indústria por atividades anti-americanas e o filme foi denunciado no Congresso dos EUA e na capa do The New York Times como subversivo. Imagino se Maria do Rosário Caetano, minha companheira de debates no Recife, conhece o filme e sua extraordinária atriz, Rosaura Revueltas? Sal of the Earth aborda, e é bem nas bordas do documentário e da ficção, uma greve de mineiros no Novo México, em 1953. Durante 13 meses, ele resistiram às pressões e intimidações. Resistiram empurrados pelas mulheres, e Rosaura, acho que a única profissional num elenco de amadores, faz a mulher de Juan Chacon (ele era minerador) que termina por substituir o marido nos piquetes. Ela lidera os mineiros e suas mulheres, ele cuida do ‘lar’. O filme é sobre a solidariedade dos mineiros e a resistência à opressão. É sobre a liberação de suas mulheres – Rosaura diz a Chacon que quer crescer como pessoa, como liderança, mas quer que todos ao redor, incluindo ele, cresçam com ela. Não creio que existam muitos filmes feministas, mas este é, e com certeza influenciou os movimentos das mulheres nos anos 1970. Um filme sobre direitos e deveres, sobre igualdade – em casa, no trabalho, na cama. Hawks consideraria isso impossível porque, como ele mostra em Hatari!, seu filme sobre caçadas na África, Sean Mercer (John Wayne), como caçador, se defronta a toda hora com a natureza e a mulher se identifica com ela, como demonstra o elefantinho que transforma Dallas (Elsa Martinelli) em mãe substituta, seguindo-a por toda parte ao som de O Passo do Elefantinho, de Henry Mancini. Hatari! é um filme de aventuras, e só um filme de aventuras, mas, como colocou Enéas de Souza num texto referencial do começo dos anos 1960 – que carrego na memória -, por que querer mais, se Hatari! conduz uma reflexão sobre o homem (e a mulher) no mundo, e sobre o cinema. Como Sean/Wayne, o próprio Hawks era um caçador de imagens – linda metáfora. Não resisti a fazer esse post baseando em lembranças, mas fiquei particularmente tentado a rever Sal da Terra. O título é o mesmo do documentário de Wim Wenders e do filho de Sebastião Salgado sobre o grande fotógrafo, que vai passar em Cannes.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: