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Prazer proibido

Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2018 | 17h15

Terminei de redigir e voltei ao começo. O post vai ser longo, aviso. Confesso que essa questão de gênero na direção me aborrece um pouco. Não, desconcerta. Não estou falando dos números, que são acachapantes. Poucas diretoras brancas, raras negras (de curtas, principalmente) e índias, acho que nem conheço. Trans? Teve aquela em Gramado, no ano passado, e o filme era muito bom (e um curta, também). O olhar feminino na direção? Agnès Varda, que fez os mais belos filmes dirigidos por mulher que conheço – Cléo das 5 às 7, As Duas Faces da Felicidade/Le Bonheur -, consegue ser um trator. O filho cineasta é uma delicadeza só, mas ela se irrita com facilidade e sabe ser grosseira. Kathryn Bigelow? Sua meta na vida é mostrar, não, provar que faz filmes mais viris que o mais macho dos diretores de Hollywood. E Emmanuelle Bercot criou fama de antipática porque, ao apresentar De Cabeça Erguida no Festival Varilux, saiu com um monte de pedras na mão contra as críticas que queriam que falasse sobre o precedente de abrir o Festival de Cannes, mesmo que não tenha sido a primeira nestes 70 anos. Emmanuelle, de qualquer maneira, fez história porque, no mesmo ano, abriu o festival (com um filme dela) e ganhou o prêmio de interpretação (por um filme de outra mulher, Maïwenn, Meu Rei) , e isso é inédito. Acho essa discussão importante e ainda estou me aparelhando para ela. Como disse Manoel de Oliveira, ao explicar porque estava trocando de produtor – aos 100 anos! -, tenho de pensar no futuro. É um fato que, historicamente, os homens sempre dominaram a estrutura social, e a arte como decorrência. Literatura, pintura, esculturas, música – nem estou falando do cinema, que é mais recente. Os trágicos gregos, que criaram emblemas de personagens femininas- Antígona, Electra, Ifigênia, Medeia, Lisistrata, etc – eram todos homens. Bach, Beethoven, Mozart, na música. Leonardo e Michelangelo, nas artes visuais. Há 30 anos, Isabelle Adjani provocou polêmica com um filme que Bruno Van Nuytten havia feito para ela, ao levantar a tese de que Camille Claudel – a louca! – era maior escultora que Auguste Rodin. Houve gente que disse que louca era ela, Isabelle. Já na literatura, na poesia e na prosa dramática, Emily Dickinson, Emily Bronte e Virginia Woolf, para só citar três, foram reconhecidas como grandes, e colocadas entre os (as) maiores. Entendo a urgência que a questão tem para mulheres, mas as maiores personagens femininas continuam sendo criações de homens – dramaturgos e cineastas. Alexandre Dumas Filho, Tennessee Williams, Ingmar Bergman, Joseph L. Mankiewicz, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, e outros. Vim lendo, ontem, no avião, de BH, o livro de Tico, As Bodas do Escorpião, que me presenteou o codiretor de Madrigal para Um Poeta Vivo, do qual gostei tanto. Tico é um escritor nas veredas de João Antônio, Lima Barreto, Qorpo Santo, Fernando Pessoa, afirma o apresentador Rubens Aparecido dos Santos. Poderia acrescentar Plínio Marcos e José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que, por sinal, assina o texto da contracapa. Só homens! Tico é um escritor forte, maldito. Numa das histórias, Borboletas Amarelas, o narrador vai à feira de artes do Embu e olha uns bichinhos artesanais. Pensa consigo que a adolescente que toma conta da barraca é que é o bichinho que ele gostaria que pusessse fim à sua solidão. Pergunta-se o que teria de fazer para adotá-la? Não vai safadeza nenhuma nisso, nenhum devaneio erótico proibido – cuidado, Woody Allen! -, mas é o tipo da coisa que teria lido no passado e agora… Hein? Se o personagem, na feira, tivesse dito o que pensou estaria configurado o crime de assédio, pelo qual estão caindo tantas cabeças. No novo mundo politicamente correto, as palavras estão se tornando mortais. Tenho pensado sobre um filme que, para mim, engloba o cinema. Hatari! Fiz um destaque recente nos filmes da TV e, enquanto redigia, pensava como aquilo podia estar sendo incorreto. Como todo filme de Howard Hawks, Hatari! engloba uma discussão de gênero, sobre os papéis do homem e da mulher na vida social. O homem, Sean Mercer/John Wayne, comanda os homens na planície, na caçada aos animais vivos. A mulher, Dallas/Elsa Matinelli, reúne o grupo em casa, ao redor do piano. Papéis sociais estratificados. A mulher autônoma é masculinizada e escolhe o homem criança do grupo (para dominar?). O homem cria, a mulher procria – durante o tempo todo do filme, Dallas é perseguida pelo elefantinho, a quem ela dá leite, e no final, a cria invade (e destrói) o leito do amor. Tudo isso parecia divertido, saudável, no começo dos anos 1960, quando já havia uma revolução comportamental em curso (mas a questão da homossexualidade ainda era tabu). Sean/Wayne caçava animais vivos para zoos – não pode mais – e Hawks, projetando-se no personagem, comparava o ato de caçar animais com o próprio sentido da direção. Filmar é, ou seria, caçar imagens. Temo que um filme como Hatari! tenha se tornado obsoleto. Pior – machista, preconceituoso. Confesso que não tenho revisto Hatari! Escrevo baseado numa experiência bem antiga, mas a música segue viva na minha cabeça. Henry Mancini, O Passo do Elefantinho. Tudo isso me entristece profundamente. No admirável mundo novo, Hatari! vai terminar virando meu ‘guilty pleasure’.