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Potência de Bicho, o teatro que ousa dizer seu nome

Luiz Carlos Merten

10 de novembro de 2017 | 10h48

Preciso acrescentar que essa depressão vem de dias. Desde que vi, dessa vez na capa de todos os jornais, aquele moleque com a cruz e uma celerada do lado dele, ambos colocando fogo no boneco de Judith Butler. A nova inquisição! Não sou nenhum especialista, mas Judith é uma pensadora interessantíssima. Seus estudos sobre sexualidade e gêneros como imposições culturais dão, ao mesmo tempo, uma compreensão teórica e humana de angústias que são muito contemporâneas. E como uma parcela da sociedade reage a isso? Querendo silenciá-la. O outro mete medo. O Islã, que todo mundo exorciza, é aqui. No Brasil da insegurança social, está surgindo um debate sobre a legitimidade de se armar os cidadãos. Já pensaram, o far-west que isso vai virar? Se em vez do crucifixo para sua encenação de ‘patriota’ e ‘moralista’, aquele carinha tiver um revólver? Bang-bang. É só isso que falta para nos equipararmos à ‘América’. Comecei o post desse jeito, mas ele vai ser sobre outra coisa. Na segunda, a concorrência – vamos lá, a Folha – deu na capa da Ilustrada uma matéria juntando três espetáculos transgressores de teatro em cartaz. Havia visto o Alair e tinha achado uma m…, sinto. Não li o texto do jornal, mas olhei o serviço., o nome das peças e vi que uma, Bicho, tinha função na segunda à noite. Companhia do Feijão, Rua Teodoro Baima, acho que 68, R$ 30 a inteira, R$ 15 a meia. Fomos, Dib Carneiro e eu. Posso colocar no plural – tomamos um choque. O texto de André Sant’Anna começa com um aspirante a ator entrevistando um michê. Ele está fazendo laboratório, o michê diz que ele está querendo é ‘dar’. O texto não é só potente, como explosivo. Depois daquela conversa, bem intencionada mas meia-boca de Alair sobre o ‘belo’, é como dar voz ao outro, aos que eram clicados pelo fotógrafo (burguês?). O michê, garoto da vida pasoliniano, fala dele, e de seus clientes. Uma hora de texto cerrado, mais ou menos, e ocorre uma coisa. Alguém canta, e não vou relatar as circunstâncias porque gostaria que, se alguém que ler esse post for ver, tenha o mesmo impacto que tive. Muda tudo. A voz agora é do ator. Ele vomita seu ódio, seu preconceito. Gostei muito de ter visto Bicho. Lembrei-me de Tennessee Williams revisto por Joseph L. Mankiewicz. De Repente, no Último Verão, quando Sebastian Venable tem a revelação de Deus no espetáculo brutal das tartaruguinhas devoradas pelos pássaros. O mundo canibal, a entropia. Bicho, a montagem, talvez perca seu momentum. A diretora Georgette Fadel é ‘zé-celsiana’ e seu final, que inclui o embate entre Deus e o Diabo, à Glauber Rocha, fica carnavalesco e excessivo. Mas existe ali um pensamento – de Georgette, do autor do texto, dos atores. Há entrega. O garoto que faz o michê, Eduardo Speroni, espero estar acertando o nome, é bom, e bom. Bicho só se completou no meu imaginário quando vi O Beijo de Murilo Benício. O filme ainda vai estrear – no ano que vem. A peça está em cartaz. De hoje a domingo, e depois na segunda. É teatro beeeemmm alternativo, mas vai valer a pena, garanto.