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Porto! E Fellini

Luiz Carlos Merten

21 de janeiro de 2020 | 11h10

Embarco daqui a pouco para Porto Alegre, onde fico até domingo. Estou em férias – desde o dia 6 -, mas se permaneço em São Paulo sigo indo todo dia à redação. Fico esses dias em Porto, depois, na semana que vem, talvez vá ao Rio, vagabundear um pouco. Gostaria de ir a Tiradentes, mas a topografia da cidade não é boa para a minha perna e ir e ficar à margem da programação, dos debates, não me parece legal. Comemorou-se ontem – segunda, 20 – o centenário de nascimento de Federico Fellini. A data passou em branco no blog. Tinha farto material do dia no C2 – a estreia de 1917 e as entrevistas que fiz com os atores, George McKay e Dean-Charles Chapman, a retrospectiva de Seijun Suzuki no IMS – e tudo teve de ser remanejado depois que Regina Duarte aceitou ser a secretária de Cultura do governo Bolsonaro. Tinha médico marcado e achei muito divertido quando encontrei Brenda Fuckuta e o filho, o Lui, na sala de espera do consultório. Não os via há tempos. Me informaram da festa de aniversário de Leila Reis, amanhã à noite. Sorry, mas não estarei aqui. Já conferi a programação da Cinemateca Capitólio, em Porto Alegre, e vi que estão apresentando o Costa-Gavras, Z e A Confissão, e que na sexta haverá uma exibição, seguida de debate, do Satyricon de Fellini, o que me devolve à data redonda, o centenário. Fellini! Não sou, nção consigo ser um felliniano de carteirinha. Minhas referências no cinema italiano são Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni, Francesco Rosi e Dino Risi. Fellini e Roberto Rossellini, admiro um pouco menos, embora goste demais de um Rossellini, De Crápula a Herói, mais, eu acho, que de todo o Fellini. Gosto do autor nos anos 1950, até A Doce Vida e Oito e Meio, quando ele afrouxa a estrutura dramática, tornando-a episódica. Aquele final do Otto e Mezzo é lindo, quando Guido Anselmi, o cineasta interpretado por Marcello Mastroianni, reconcilia todos os personagens de sua vida numa ronda circense. O Casanova de Fellini me parece o menos palatável de quantos vi. Fellini misantropo, cada vez mais refugiado num mundo de sonho, idealizado no mítico Estúdio 5, de Cinecittà. Os filmes da fase final não me interessam, exceto Fellini Entrevista. Ginger e Fred sempre me pareceu um filme de horror. A Voz da Lua – lembro-me de haver escrito que quem a escutou foi Akira Kurosawa, na cena de Rapsdóidia de Agosto em que a avó e os netos ficam em silêncio, no terraço da casa, olhando para a lua. Gosto do rito fúnebre de E La Nave Va, mais que dos excessos de Amarcord, embora me encantem o Rex e a Gradisca. Fizemos live na TV Estado para comemorar o centenário, Fellini foi capa no impresso, no domingo. Um ponto de discordância, entre Luiz Zanin Oricchio e eu, é que ele vê as narrativas desdramatizadas, episódicas, de Fellini como signo de modernidade – eu vejo mais modernidade na tendência de Suzuki à abstração – e de algum forma sempre me incomodou uma frase do cineasta. Era um notório mitômano, mentiroso. Percebo, como Jean Tulard, certa gratuidade quando ele diz, a partir de certo momento, que filma sem um plano. “Terminarei (Roma) quando acabar o dinheiro.” Mentira, claro. Não se cria um delírio daquele sem muito planejamento. Mas, enfim, tenho meus momentos de ou com Fellini. Só não é um dos autoresno meu Olimpo.

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