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Por quem chora Lisbeth Salander no novo Millenium (o melhor)?

Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2018 | 09h50

Aos 73 anos e tomando porrada da vida desde o nascimento – não pensem que é fácil ter nascido com uma malformação física; meu nome vocês sabem, o apelido poderia ser bullyng, mas não estou me queixando; o que não mata fortalece -, me considero, como na música, um eterno aprendiz. Tudo o que quero é ainda ter coisas, e tempo, para vivenciar, descobrir. Por isso mesmo fico pasmo quando vou ler alguma crítica na internet e encontro sempre, de parte da garotada, reparos à falta de profundidade dos filmes. Demorei para ver Millenium, A Garota na Teia de Aranha, de Fede Alvarez, o que fiz somente ontem à noite. Fiquei impactado. Resolvi fazer uma pesquisa para ver o que haviam dito sobre o filme. A média da abordagem diz que o filme tem falhas estruturais, a trama é fraca e, no limite, o que o salva é a atuação da Claire Foy. Gosto muito de Rooney Mara, mais até que de Naomi Rapace, mas Claire é mesmo a melhor Lisbeth Salander. Com isso concordo. Nunca vi The Crown, mas já tinha me encantado com ela em O Primeiro Homem na Lua, como a mulher de Neil Armstrong, Ryan Gosling, no longa de Damien Chazelle. Não preciso ficar repetindo o que todo mundo sabe. A série Millenium surgiu na Suécia e virou fenômeno editorial mundial que o escritor Stieg Larsson quase não pôde desfrutar, porque morreu logo. David Lagercrantz continuou com a série, e não duvido que o objetivo fosse puramente comercial, mas vá saber – David Fincher, por maior cineasta que seja, não fez o melhor filme. Quem fez foi Fede Alvarez e o seu Millenium, em vez de A Garota na Teia de Aranha, poderia se chamar, como Robin Hood, A Origem. Ponto para Lagercrantz. Começa na infância de Lisbeth, quando a irmã e ela são abusadas pelo pai monstruoso, Lisbeth foge e vira a justiceira contra o abuso. Todas as chaves do filme giram em torno desse trauma inicial e o verdadeiro protagonista é o menino, que Lisbeth vai tentar de todas as formas salvar. É um filme de amor hetero e de sexo, homo, e a grande cena é o reencontro final das irmãs, olha o spoiler, quando Lisbeth chora. Por que chora a heroína? Como diz o menino, citando o pai, é preciso fugir ao passado porque, às vezes, ele vira um buraco negro que ameaça nos tragar. Esse pai evoca Oppenheimer, o criador de todas as bombas, que gostava de citar o Livro dos Vedas, dizendo que se havia transformado no destruidor de mundos, e era o seu tormento. Sei lá de falhas estruturais e quero mais que todo suspense tenha uma trama ‘fraca’ como a do novo Millenium, que me tragou numa vertigem que me fez ver o filme de coração na mão, pulando na poltrona a cada twist, ou reviravolta. Não sei se Millenium segue em cartaz, mas se ainda estiver vejam, ou revejam. É forte, é belo, é trágico. Ecos de Shane. O cavaleiro andante, transformado em nova mulher empoderada, olha o spoiler de novo, assiste de cima – do Olimpo? – ao reencontro do menino com a mãe. Há aí uma promessa de que esse garoto, acolhido no seio da mãe, possa se tornar um homem melhor. Como faz o jornalista, abrindo mão da grande matéria. Tudo se encaixa, o mundo faz sentido – pelo menos na ficção.