As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Por que o Chefão III mexe tanto comigo? (A pergunta que não cala)

Luiz Carlos Merten

06 de abril de 2020 | 16h00

Assisti ontem à maratona do Chefão no canal Paramount – parcialmente. Revi o primeiro filme, pulei para outro canal para ver o programa duplo de John Wick, aproveitando os intervalos para voltar, mas, quando começou o 3, parei tudo e fiquei siderado em frente à TV. Deixo o John Wick para depois. Francis Ford Coppola deve muito de sua reputação a O Poderoso Chefão 1 e 2, de 1972 e 74, que lhe valeram dois Oscars de roteiro adaptado (com Mário Puzo), um Oscar de melhor filme (o primeiro) e os prêmios de melhor filme e direção (o segundo). O Poderoso Chefão III, de 1990, sempre foi o enjeitado dessa série. Coppola até foi indicado para melhor diretor e Andy Garcia concorreu a melhor ator coadjuvante, mas era o ano de Dança com Lobos e a Academia preferiu descarregar suas estatuetas no Kevin Costner. Como se o autor fosse intocável, muitos críticos tentaram atingir o pai por meio da filha e caíram matando em Sofia Coppola, como se fosse responsável pelo fracasso – segundo eles – do filme. Sofia entrou numa emergência, em cima da hora, quando Winona Ryder ficou impossibilitada de fazer o papel da filha de Michael Corleone. Confesso que tenho uma queda pelo Chefão III. Não sou louco de não reconhecer que os dois primeiros possuem grandes qualidades e podem ser (são) até melhores, mas o ‘meu’ Chefão, o que eventualmente levaria para a ilha deserta, é o III. Tem a ver, creio, com o tema do afeto entre pai e filha e a curva dramática do roteiro de Coppola e Puzo (o autor do livro), que sacrifica, olha o spoiler, a filha de Michael e Coppola teve de filmar a morte da própria filha. Quando Sofia, como Mary, olha para o vestido, vê o sangue e cai de joelhos apenas balbuciando ‘Pai!’ e Al Pacino, urrando feito bicho, expressa toda a dor humana, aquilo me atinge de um jeito que não consigo nem explicar. Já perdi a conta das vezes que vi o Chefão III e a emoção é sempre a mesma, como se estivesse descobrindo a cena pela primeira vez. E tem a questão do papado e do Banco Ambrosiano, que envolveu o Vaticano num escândalo financeiro, de lavagem de dinheiro sujo. Na ficção de Coppola, o esquema podre mata até o papa (João Paulo I), que ordenara a investigação do caso. Havia (re)visto a montagem paralela, a matança durante o batismo (e o bebê era Sofia), no gran finale do primeiro. Mas o terceiro – a matança ocorre durante uma ópera, a Cavalleria Rusticana, em que o filho de Michael e Kay, Tony, é o tenor. Acho aquilo uma loucura – como quando Connie/Talia Shire acompanha pelo binóculo a agonia de Eli Wallach. Não é nada pessoal, tudo pelos negócios, a ‘Família’. Quando ela diz, chorando, ‘Dorme, padrinho, dorme’, tenho sempre, para mim, que Shakespeare, naquele momento, encarnou no duo Coppola/Puzo. Mas aí ainda vem mais. A morte mais sofrida, a que despedaça o coração de Michael (e o meu), ocorre fora do teatro, na escadaria de acesso, quando o público se dispersa. Coppola ousou. Fez a sua escadaria de Odessa, sem carrinho de bebê, mas com o mesmo sentido visceral de perda. Da forma como o vejo, Chefão III é o episódio mais intimista da trilogia. Os outros são épicos, sobre a construção do império dos Corleone, Dom Vito e Dom Michael. O terceiro é sobre a destruição, mesmo que termine com a ascensão do filho bastardo de Sonny, e Andy Garcia esteja admirável. Numa saga em que corre tanto sangue, a última imagem, do terceiro filme, não poderia ser mais prosaica. Um velho e seu cachorro, apenas. Amo a cena em que Michael tem o ataque do coração e acorda fragilizado no hospital, e quem está ali, a despeito de tudo o que os separou, é Kay. Amo quando Tony homenageia o pai com uma canção tradicional siciliana, e é a mesma que, no primeiro filme, embala o namorado e o casamento de Michael com a mulher que será morta num atentado contra ele. Duas perdas, duas mulheres – a esposa, na juventude, e a filha, na velhice. O filme terminou 1 e tanto da manhã. Em vez de dormir, fui pesquisar – Bagheria, na Sicília. É nessa comuna de Palermo que tudo termina. O nome pode ter origem fenícia, e significa ‘descida para o mar’, ou árabe, e aí quer dizer ‘porta para o vento’. Sempre quis conhecer Monument Valley, e fui. Levado por um amigo, em outro momento da minha vida. Fiquei morrendo de vontade de conhecer Bagheria. A Sicília, cenário de tantos filmes gravados no meu imaginário – de Luchino Visconti, Francesco Rosi, Pietro Germi. Quem sabe, depois que tudo isso passar…?