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Por que Lion mexe tanto comigo?

Luiz Carlos Merten

16 de dezembro de 2020 | 23h49

Não tenho a menor dúvida de que Moonlight – Sob a Luz do Luar tenha sido o melhor filme no Oscar de 2017, mas lamento que a Academia não tenha premiado também Barry Jenkins como melhor diretor, preferindo outorgar a estatueta da categoria a Damien Chazelle, por La La Land – Cantando Estações. O que também não tenho dúvida é que, dos nove filmes selecionados naquele ano, nenhum mexeu/mexe comigo como Lion – Uma Jornada Para Casa, de Garth Davis. A história do garoto que se perde do irmão numa estação de trens da Índia e inicia a jornada que o leva a ser adotado por um casal australiano. Depois, já adulto, outra jornada, de volta para a ìndia, para reencontrar a mãe biológica. Sinto que não devia gostar tanto de Lion, porque o filme promove uma ferramnenta do Google para investigar/localizar qualquer lugar do mundo e também porque o projeto está ligado a uma ONG que mapeia o desaparecimento de crianças em todo o planeta. Seria, ou é, um filme de propaganda, não exatamente de arte. E ainda tem a questão dos sentimentos. Sempre penso em Lion comparando o Garth Davis a Ladrões de Bicicletas. Se é possível gostar do Vittorio De Sica com todo o seu miserabilismo, então mais ainda de Lion. Revi o filme ontem à noite e, mais uma vez, fiquei siderado. Garth Davis consegue tocar em questões viscerais, e é o que faz a diferença. Nicole Kidman, que faz a mãe adotiva, está extraordinária e concorreu ao Oscar de coadjuvante, uma das cinco categorias em que o filme foi indicado, sem vencer nenhuma. A cena da refeição, quando os dois filhos adotivos brigam, é para mim uma aula de representação de tensão nervosa. Nunca vi ninguém melhor que Nicole no papel, mas, claro, ela ganhou seu Oscar pelo nariz postiço de Virginia Woolf em As Horas. O que me toca em Lion, e constatei isso pela enésima vez, é a relação dos irmãos de sangue. Dev Patel como Saroo, ou Sharu – Leão – e o irmão mais velho. Quando ficamos sabendo no desfecho o que ocorreu – porque o irmão perdeu-se de Saroo – tenho de admitir que, de novo, aquilo me atingiu como um raio e eu chorei de soluçar, de tanta dor. Não digo que deva ser essa a função do cinema, mas e quando acontece, como aqui? Vou ignorar? O irmão chamando Saroo e ele, adulto, virando criança de novo nos trilhos do trem, em busca do tempo perdido, um desses momentos mágicos que o cinema pode criar. Cada espectador vê o filme do seu jeito, colocando suas coisas, ou não. E, para mim, Garth Davis com certezas viu a trilogia de Apu, de Satiajit Ray. O trem não está ali por acaso. É reminiscência de Ray – o trem como destino, num mundo em processo de transformação. Adoro Rooney Mara e ela tem aquele olhar compassivo de quem entende o sofrimento humano, dando força à busca de Patel pela mãe. Garth Davis fez dela, a seguir, a sua Maria Madalena, e é outro filme que mexe comigo. Joaquin Phoenix como Jesus, Chiwetel Ejiofor como Pedro, que não aceita a mulher como discípula do Mestre. Maria Madalena, o filme, é contemporâneo de Mulher Maravilha, o primeriro. Os dois têm tudo a ver. Alguém há de contestar essa visão da Madalena como não tendo fundamento bíblico, mas como ficção investigativa é muito forte, levanta questões pertinentes com o aqui e o agora. Mas como os dois irmãos de Lion, não há. A mãe briga num momento, antes da separação. Acusa o irmão mais velho de não estar cuidando direito do pequeno. O olhar triste do garoto face à tremenda injustiça é das coisas mais dilacerantes do cinema. Para mim, os filmes de Garth são experiências espirituais. Cinema da transcendência. Tanta coisa nova para comentar, e eu fico falando de um filme que já foi, e nem estourou. É a minha sina, sempre atrás da grandeza dos derrotados.