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Por que, José? (Sobre Nicole Garcia e seu Instante de Amor)

Luiz Carlos Merten

25 de junho de 2017 | 13h00

Queria muito rever Mal de Pierres, o longa que Nicole Garcia adaptou do romance de Milena Agus. No ano passado, havia grandes interpretações femininas em Cannes. Isabelle Huppert (Elle), Sonia Braga (Aquarius), Marion Cotillard (Mal de Pierres, Um Instante de Amor, no Brasil). O júri presidido por George Miller preferiu premiar a atriz filipina de Ma’ Rose, de Brillante Mendoza. O tema surgiu durante a coletiva do júri – por que ela, face à outras? Nem me lembro quem, um ator, disse que o júri havia discutido, avaliado e decidido que Jaclyn Jose era a melhor. Não era. Marion é uma estrela internacional, mas tenho sempre a impressão de que não é muito querida pela imprensa francesa. Marion já deveria ter ganhado em Cannes pelo Jacques Audiard (Ferrrugem e Osso) ou pelos Dardenne (Dois Dias Uma Noite). É magnífica em Um Instante de Amor. Bela, intensa. Gabrielle, a personagem, arde de desejo. O filme abre-se com a ‘chatte’ de Marion, que ela tenta refrescar na água movente do rio. Gabrielle necessita um homem. Ao Cristo nu, na cruz, reza pedindo ‘la chose principale’. A mãe não aguenta mais a filha histérica e lhe dá um ultimato. Um casamento de conveniência ou a internação. Folle d’amour. Em Cannes, vendo Um Instante de Amor pela primeira vez, já havia pensado em Elia Kazan. A natureza humana que não pode ser reprimida. Natalie Wood em Clamor do Sexo. Gabrielle casa-se com o trabalhador espanhol, José. Diz que vai fazê-lo infeliz, que não o ama. É méchante, cruel. Ele responde que também não a ama. Despossuído, vai usar o casamento para se firmar. Construir a casa. Mas não é verdade que não a ame. José é de poucas palavras, mas diz as duas frases talvez mais belas de Um Instante de Amor. Uma, à mãe de Gabrielle. A outra, à própria mulher, após a reviravolta final, quando Gabrielle lhe pergunta – por que? Não creio que Nicole Garcia seja uma grande diretora, mas é corajosa. Desde O Filho Preferido, que dialogava com Rocco e Seus Irmãos, interesso-me muito por seu cinema. Em geral, são os homens a falar do desejo das mulheres. É bom ver uma mulher encarar o tema, e com uma atriz despudorada como Marion. La chose principale. Ao conhecer o militar interpretado por Louis Garrel, que preenche todas as suas fantasias, ela agradece a Jesus, por atender seu desejo. O livro tem uma epígrafe, retirada da fala de um dos soldados de A Linha Vermelha, de Terrence Malick – ‘Se eu nunca te encontrar, faz com que pelo menos sinta tua falta.’ Nicole assina a adaptação do livro – o roteiro – com Jacques Fieschi. Imagino que só possa vir dele, um homem, o diálogo do encontro de José com o belo e ‘tenebroso’ Garrel. É algo visceral, mas entendo que, ao explicitar o desfecho, enfraquece a ousadia do relato. Só quero dizer que gostei de rever Um Instante de Amor e sinto que vou fazê-lo de novo, e de novo. Tenho essa necessidade de ação, aventura – e romance. No seu silêncio e dignidade, José, interpretado por Alex Brendemühl, é a chave para o que Um Instante de Amor tem de mais maduro. E eu gosto dessa crueza de Nicole Garcia. Como a mãe de Gabrielle, que diz que vai direto ao ponto, ela também vai. José vai às putas. André/Garrel também evoca as putas de Saigon – o filme passa-se nos anos 1950, durante a Guerra da Indochina. Posso ser demodê, até cafona, mas amo essas histórias romanescas.

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