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Por que?

Luiz Carlos Merten

17 de março de 2013 | 14h11

Estou na redação do Estado, olhando pela janela. O mundo lá fora não poderia estar mais cinzento. Vocês sabem que eu amo Georges Simenon e Agatha Christie. Leio e releio seus livros, emendando um Maigret num Poirot (ou Miss Marple). Não me canso nunca. Ontem mesmo relia Simenon, Maigret no Picratts. A ação passa-se numa Paris invernal, cinzenta e chuvosa. Um parágrafo exemplar – Maigret diz que é um daqueles dias em que a gente se pergunta por que nasceu, e pior que isso, por que faz tanta força para permanecer no mundo? E Agatha, que nunca para de questionar a Justiça – mais vale um criminoso solto do que um inocente condenado. Dependendo do inocente, não é isso que ocorre, ou tem ocorrido. Gosto de tergiversar sobre esses assuntos, de divagar nos meus raciocínios. Fui ver Recusa com meu amigo Dib Carneiro na sexta-feira. Havíamos encontrado o Rui Cortez, na premiação da APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte. O Rui administra o teatro da Consolação que abriga a montagem da Cia. Balagan. Recusa ganhou o prêmio de elenco masculino da APCA. São dois atores, eu teria dado o troféu para o mais baixo, cujo nome não sei, embora o projeto seja do outro (que é bom). Recusa ganhou o prêmio Shell de direção. De novo me pergunto que raio de júri atribuiu esse prêmio? A peça também ganhou dramaturgia e Luiz Alberto de Abreu é um dramaturgo importante, que fez coisas das quais gostei. Mas Recusa não dá. Dois índios de uma tribo considerada extinta, os piripkuras, vagam por fazendas de Mato Grosso. Recusam-se a fazer contato com quem quer que seja. Riem das histórias que contam um para o outro. Preferem ficar sós, isolados. Bastam-se – mas isso será verdade? Não digo o contexto da peça, que se baseia numa história real. Pergunto-me se, na maioria das vezes, o isolamento não é só uma ferramenta, um subterfúgio, como o suicida que tantas vezes quer ser salvo. No início, até pelo estranhamento – ou os caras falam a língua dos índios ou inventaram uma língua para o espetáculo -, a ideia é fascinante. Mas vira um espetáculo de uma ideia só e eu terminei por me desligar, apesar das tentativas para me manter antenado. Pensei comigo que o ‘processo’ deve ter sido bem interessante. Mais uma peça/montagem de processo. É a última invenção dos grupos de teatro de São Paulo. Os índios ali falando, e rindo, e eu, desligado do Luiz Alberto de Abreu, comecei a pensar no processo de Shakespeare para criar Hamlet, e Macbeth, que não faço a menor ideia de qual terá sido e não importa, porque o que me fisga é a força do texto (das palavras). Delirando, cheguei aos processos de Wagner Moura e Aderbal Freire Filho, de Thiago Lacerda e Ron Daniels para colocar no palco o famoso ‘Ser ou não ser’. Tenho de admitir que não gosto de nenhuma das montagens – a do Daniels é pior -, mas acho os atores bem impressionantes, mesmo que Wagner seja aeróbico demais para o meu gosto. Fodam-os processos, no limite o que interessa, insisto, é o texto, é o to be (ou to have). Ando cansado dessa ausência de dramaturgia, ou dramaturgia fraca, que resulta em visuais interessantes, eventualmente intensos, e só. É curioso ficar falando em visual no teatro, e não que ele não seja importante, mas penso em Maigret e no raio de seu dia chuvoso. Por que fazer tanto esforço por coisas que não me enriquecem?

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