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Por essas fontes murmurantes, a Aquarela do Brasil no Boca

Luiz Carlos Merten

17 Junho 2018 | 10h50

Fui rever ontem o Boca de Ouro de Gabriel Villela, o maior evento do teatro brasileiro nos últimos tempos. Gabriel é um dos grandes – o maior? Há tempos não colhia um sucesso tão estrondoso de público, de crítica. Os críticos,. aliás, lá vou eu me meter nas seara alheia, elogiam mas não entendem. Se fossem sérios, o Boca deveria ter recebido todos os prêmios do ano. Malvino Salvador é excepcional no papel – fui conferir outro nome e encontrei que o ‘crítico’ de Vejinha acha que ele não tem ‘vigor’, Jesus! -,mas quando Chico Carvalho está em cena como Maria Luisa não tem para ninguém. E Mariana Elisabetsky cantando é uma loucura. O Boca merecia um CD. Gabriel fez a releitura tropicalista do texto de Nelson Rodrigues. Colocou o Brasil no palco. Havia visto a montagem no arena do Tuca. Revi ontem no palco italiano do Viva. A simples adaptação ao novo espaço criou um novo espetáculo. Sob aquele guarda-sol sombrio, o Boca busca informação sobre a mãe. A cena termina com a Aquarela do Brasil. Antropofagia mineira. O barroco devora o tropicalismo. O tom é fúnebre. O Brasil está morrendo – e não está? O que será de nozes nesse ano eleitoral? O tom fúnebre continuou para mim no jantar, depois. Fomos ao Camello. Gabriel, Cláudio Fontana, Dib Carneiro e eu. De alguma forma, outra despedida. Gabriel está cheio de projetos, de um Pirandello a Albert Camus e a Guimarães Rosa, porque ele não desistiu de fazer Guimarães Rosa, o Grande Sertão – Veredas, que gostaria que Dib Carneiro adaptasse para ele, e eu, que já estou velho, sonho em ver seu (sua?) Diadorim, mas a questão do patrocínio está difícil. Boca de Ouro despede-se hoje, e pode ser a despedida definitiva. Não há dinheiro para novas itinerâncias. De repente, me bateu uma tristeza. O que vi ontem no Vivo foi mágico. Um espetáculo perfeito – o próprio Gabriel, tão exigente consigo mesmo, estava feliz, satisfeito. A vida é feita de momentos. O Boca de Gabriel Villela é um dos que ficam no imaginário da gente.