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Pollack, Frankenheimer e a primeira era de ouro da TV dos EUA

Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2018 | 23h32

Havia comprado vários livros de cinema em Buenos Aires, no fim do ano. Nada de teoria – Cine Jazz, de Carlos Aguilar, um abecedário de filmes e artistas que fizeram esse diálogo, com direito a foto de Marilyn Monroe e Ella Fitzgerald na capa (e dentro, MM com Eartha Kitt e outras lendas, o que me leva a supor, mesmo sem ter lido ainda, que a loira era ligadaça no tema); Solo para Cinéfilos, uma coletânea de ensaios editada por Richard T. Kelly para ajudar a ver ‘mas allá de las películas’; Películas Clave del Cine Histórico, de Enric Alberich, que mapeia a relação dos filmes com a grande História; e A Linguagem do Império, de Domenico Losurdo, um léxico da ideologia estadunidense, mas acho que esse comprei em Porto Alegre, porque a edição é brasileira. Ignorei todos esses e comecei a ler, na volta de Tiradentes, o Sydney Pollack de Rubén Ordieres, da Editora Cátedra, de Madri, na Coleção Signo e Imagen, Los Cineastas. Pollack realizou grandes filmes que estão entre as minhas maiores e mais intensas experiências no cinema – A Noite dos Desesperados, sua versão de Mas não Se Matam Cavalos?, de Horace McCoy; e Mais Forte Que a Vingança/Jeremiah Johnson, o western mítico com Robert Redford. Pollack realizou também Nosso Amor de Ontem, Tootsie e Entre Dois Amores/Out of Africa, que lhe valeu os Oscars de filme e direção de 1985. Como cineasta de prestígio, cheguei a compará-lo, certa vez, a William, Wyler – multiplicidade de gêneros, grandes atores, de quem extraía grandes interpretações, uma preferência acentuada pelo realismo psicológico, etc. Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, chega a defini-lo como um dos últimos grandes líricos de Hollywood, e até aí tudo bem, mas lendo o livro de Ordieres já descobri que Pollack preferia, na própria obra, os filmes menos apreciados pela crítica. Os filhos enjeitados – Revanche Selvagem/The Scalphunters; A Defesa do Castelo (Castle Keep), os dois com Burt Lancaster; e Um Momento, Uma Vida/Bobby Deerfield, com Al Pacino, que foi um fracasso monumental, mas do qual me lembro de haver gostado bastante. Não cheguei a ler muito, mas o suficiente para seguir as aventuras do jovem Pollack na TV dos EUA no fim dos anos 1950, na série Playhouse 90, na qual toda uma geração de jovens (um certo Sidney Lumet) ousava, sob o comando de John Frankenheimer. O mais curioso é que, antes de ir para Tiradentes, comprei algumas revistas de língua inglesa na banca do Conjunto Nacional e, numa delas, a Film Comment de novembro/dezembro, há um estudo muito interessante justamente da revolução iniciada por Frankenheimer com suas adaptações de grandes autores na Playhouse 90. Numa época de crise, em que Hollywood investia nos épicos bíblicos grandiosos para enfrentar a concorrência da televisão, a nova mídia – a telinha – virava uma fonte de criatividade, a ponto de atrair um Alfred Hitchcock, por exemplo. Serei só eu ou há 60 anos, 60!, a TV dos EUA já vivia uma primeira época de ouro, como a que boa parte da crítica identifica nas séries atuais? Frankenheimer foi outro que fez grandes filmes nos anos 1960 e 70, e o estudo de Robert Horton identifica em telefilmes como Forbidden Area, com Charlton Heston, sobre o perigo atômico, e A Outra Volta do Paraíso, baseado em Henry James, com Ingrid Bergman – a mesma história de Os Inocentes, de Jack Clayton, com Deborah Kerr -, a origem da tensão visual que seria sua marca autoral em Hollywood. Achei tudo muito estimulante, e com certeza uma contribuição valiosa para o debate das multitelas.