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Poirot, crítico de cinema?

Luiz Carlos Merten

18 Janeiro 2018 | 13h22

Dib Carneiro havia me mostrado o desabafo de nossa ex-colega no Estado, Martha Sanjuan França, acho que no Face. Ela protestava contra as liberdades – sinal dos tempos! – que o ator e diretor Kenneth Branagh tomou em sua adaptação de Assassinato no Expresso do Oriente. Hércule Poirot, o detetive criado por Agatha Christrie, sempre apostou na massa cinzenta. Era homem da reflexão e do pensamento, nunca da ação, como o mostra Branagh, com seu Poirot que corre, bate e apanha ao se envolver em ação física, etc. O Poirot original se cansaria só de pensar que isso fosse ocorrer. Feita a ressalva, quem me acompanha sabe que me diverti com Expresso do Oriente – na versão de Sidney Lumet, dos anos 1970, era Orient-Express -, porque, basicamente, a história é boa e isso ninguém, nem Kenneth Branagh, estraga. Mas, enfim, como não vivo sem reler os mistérios de Agatha, as aventuras de Sherlock Holmes (grande Conan Doyle) e o rigor, que de tão realista vai se tornando abstrato, de Maigret – alguém, me dirá que sou louco ao afirmar que Georges Simenon foi, é, um dos maiores escritores que já existiram? -, quero relatar a pérola que encontrei relendo A Morte da Sra. McGinty. Hércule Poirot, crítico de cinema. No livro de 1952, o detetive sai de um restaurante, no qual comeu divinamente. Para Poirot, alimentar-se não é só uma atividade para o corpo, mas também um prazer intelectual. Depois de incensar os escargots do La Vieille Grand-mère, um obscuro mas refinadíssimo restaurante do Soho, de Londres, ele resolve ir ao cinema. Mas pensa – olhem o texto.
“Franzindo levemente, (Poirot) balançou a cabeça. Na maior parte das vezes, o cinema deixava-o irritado pela fragilidade de seus enredos – a falta de sequência lógica dos argumentos – e também pela fotografia, tão exaltada por certas pessoas, mas que para Hércule Poirot dava a impressão de ser um retrato feito com o claro propósito de que cenários e objetos parecessem algo totalmente distante do que são na realidade.
“Hoje em dia, concluiu Hércule Poirot, tudo estava ficando artístico demais. Não havia mais o amor pela ordem e pelo método, que ele tinha em tão alta conta. E quase ninguém mais sabia apreciar a sutileza. As cenas de violência nua e crua estavam na moda e, como ex-policial, Poirot estava cansado de violência. Em sua juventude, tinha visto a brutalidade nua e crua em doses mais que suficientes. Era mais regra que exceção. Ele achava tudo aquilo extenuante, além de afronta à inteligência.”
Admira que, depois dessa reflexão, Poirot desista de ver um filme e prefira ir para casa? A própria Agatha, 65 anos antes, estava antecipando seu desagrado pelo que Kenneth Branagh iria fazer com seu Poirot. Só Branagh? Nem Poirot nem Miss Marple são muito ‘cinematográficos’. Um sujeito esquisito que prefere sentar-se para pensar. Uma solteirona que tricota e também pensa. No acelerado mundo atual, tudo tem de ser mais rápido. Ação! Mas se pelo menos os cineastas filmassem bem como Agatha escrevia. Os filmes seriam melhores.