As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Pirandello via janela indiscreta de Eduardo Tolentino

Luiz Carlos Merten

07 Maio 2017 | 13h53

Foi um sábado de exceção, epifânico, para mim. Não sai se existe a palavra, derivada de epifania. No outro dias, falei que tive um maravilhamento e João Wady Cury me informou, por e-mail, que a palavra é erudita, português castiço do século 15 ou 16. Ontem acordei um pouco tarde, por volta das 9 horas, ainda convalescendo e sob efeito da combinação do antitérmico com antibiótico. Escrevi meus posts, almocei com a família do Dib, fui ao MIS para ver filmes e ouvir pessoas que considero de bem, emendei com o experimento de teatro de câmara de Eduardo Tolentino. O espetáculo, para grupos reduzidos – ontem, éramos 18 -, está sendo montado na própria sede do Tapa, na Rua Lopes Chaves, na Barra Funda. Espero estar acertando o nome, porque o que vou dizer é grave. O motorista de táxi me levou para outro endereço ali perto. Trocou o Lopes, acho que de Oliveira, o que me obrigou a fazer um tour pela região. A Barra Funda está longe de ser a periferia da periferia. Passamos por ruas residenciais tão atulhadas de lixo nas calçadas que pareciam cenários do curta Restos. Não sei como os habitantes resistem. Aquilo não parecia lixo do dia, era acumulado. Fernando Haddad garantiu que a cidade é limpa todos os dias, como ex-administrador ele sabe, mas parece suja. OK. Só que, para chegar à Barra Funda, passamos pela Av. Rio Branco, cujos semáforos estão fora do ar há meses. Não exagero, porque passo seguido por ali e sei. Mas, enfim, cheguei. Havia um grupo de estudantes de filosofia, um casal – ela, estudiosa de teatro, ele, autor -, uma moça avulsa, outro casal mais jovem, e Dib Carneiro e eu. Sentamos num bar improvisado para tomar um trago – eu fiquei no refri – e o Tolentino nos levou para outro espaço interior, onde ocorreria a encenação. Explicou a origem do texto – O Torniquete, de Pirandello -, falou do Kaos siciliano, do verismo, naturalismo e do pirandellismo, atravessou o neo-realismo italiano, chegou aos irmãos Taviani, mas, veladamente, a matriz era Alfred Hitchcock, com um perfume de Luchino Visconti. Janela Indiscreta. Como Gavino Ledda na abertura de Pai, Patrão, ele nos convidou a entrar no melodrama, ou na comédia, no sentido de Dante. Todo o espaço era exíguo. Uns dois metros nos separavam, jardim improvisado, das janelas de uma casa. Lá dentro, o amante irrompia na sala para dizer à mulher que o marido sabia de tudo. Uma conversa tensa. Ela fugiu de casa para ficar com o homem que lhe prometia um mundo de emoção, mas o marido, que lhe tomou o dinheiro emprestado e trabalhou feito louco para constituir fortuna, não teve mais tempo de lhe proporcionar o prazer que prometia, e ela esperava. Teatro de câmara ou câmera? A janela, delimitando o campo – é a única rubrica no texto de Pirandello, mas está no fundo do cenário; Tolentino colocou-a à frente -, cria não apenas um efeito de cinema (a indiscrição hitchcockiana), como um distanciamento. Lá dentro, o ambiente, arranjado pelos atores, tem um fausto viscontiano. Tapeçarias, vasos de flores, tudo somente ‘meio’ visto. O figurino é de época, estilizando 1910, quando a peça, a primeira do autor, foi escrita. Sai o amante, entra o marido. Instala-se a violência. A cena sai da segurança detrás da janela e o casal vem para o embate no jardim. A garota do meu lado não sabia o que fazer, tendo de compartilhar o espaço com osatores na hora da briga. O código de honra siciliano, a moralidade. O marido expulsa a mulher de casa. Ela suplica pelos filhos, prefere morrer. Nada o demove. Nesse mundo do politicamente correto, Pirandello está indo na vertente da culpabilização da vítima e, quando chega o revólver, arranha o conceito, hoje tão em moda, do empoderamento, palavra horrível, mas não tenhamos medo dela. O que faz a mulher com o revólver? Tãtãtã. Tentem ser convidados para as últimas sessões, que ainda ocorrem na próxima semana, completando 80 apresentações, ou procurem pelo texto na internet. A montagem, em si, é brilhante. Forma e conteúdo indissociáveis, mas a forma é tão forte que impõe o conteúdo. Um não ao naturalismo da TV, ao mundo de simulacros a que o público vive relegado via novelas. Há um simulacro – o tiro -, mas no bate-papo Tolentino explicou que hoje é impossível comprar um cartuxo para simular uma explosão, mesmo no teatro, sem porte de arma. Outra contradição brasileira – todo dia morre gente vítima de tiros. De onde vêm as balas? De que mercado paralelo? Terminada a encenação – Tolentino, de novo como Gavino Ledda, encerra a ‘comédia’, fechando a janela -, nós, o público, somos convidados a ficar para o bate-papo. Só uma vez, nessas 70 e tantas apresentações, o público inteiro desertou. Ontem, ficamos todos e, só com o debate avançando, as pessoas foram saindo, o que era inevitável. Ética, estética. Política, de alguma forma prosseguindo com o debate da tarde. Os atores, Bruno Barchesi, Cinthya Hussey e Daniel Volpi – espero estar acertando os nomes -, são magníficos. O conceito e a encenação, brilhantes. E Tolentino anuncia para junho, quando espero estar de volta de Cannes, outra montagem de câmara. Se o Pirandello lhe forneceu o quadro italiano e a inspiração viscontiana, a próxima, ele promete, será bergmaniana. Os Credores, de Strindberg. Estou dentro, por favor.