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Piaget ou Pinochet, onde estavam as milícias?

Luiz Carlos Merten

30 de maio de 2020 | 14h06

Acho que nunca passei tanto tempo sem postar. Uma semana! Parece difícil acreditar que, em pleno isolamento social, e no home office, esteja conseguindo me manter tão ocupado. Agora mesmo, acabo de concluir o texto sobre A Aventura, na série Clássico do Dia. Sabia que terminaria por escrever sobre Michelangelo Antonioni, mas hesitava entre A Aventura e O Eclipse, a abertura ou o fecho da trilogia da solidão e da incomunicabilidade. Paula Ferraz, sem saber da minha dúvida, ajudou-me ao dizer esta semana que A Aventura está no streaming do Belas Artes a La Carte. Ao longo da semana escrevi sobre Dois Destinos, o clássico Cronaca Familiare de Valerio Zurlini, e produzi extensos materiais que me foram encomendados pelo editor do Caderno 2, Ubiratan Brasil. Clint Eastwood completa neste domingo, 31 – amanhã -, 90 anos. Escrevi um texto, compilei frases, selecionei os melhores filmes como ator e diretor, até os piores. Reli as biografias de Marc Elliot e Richard Schickel, passando de novo pelo horror que foi a ruptura com Sondra Locke. O mal que as pessoas que um dia se amaram conseguem se fazer – é o tema também de Cronaca Familiare e da trilogia de Apu, do indiano Satyajit Ray, também um dos meus ‘clássicos’. Mal havia me desvencilhado do Clint – haverá amanhã uma homenagem do Telecine Cult com seis filmes, a partir das 12h30 – e Bira já estava me lançando um desafio. Escolher o melhor filme de cada ano nos anos 2000. O melhor internacional e o melhor brasileiro. Alguns eu nunca tive dúvidas de que estariam numa eventual lista do tipo, era só checar o ano. Dançando no Escuro, Moulin Rouge, Ratatouille, Batman – O Cavaleiro das Trevas, Tio Boonmee Que Pode Recordar Vidas Passadas. E Bicho de Sete Cabeças, Edifício Master, Cidade de Deus, Santiago, Estrada para Ythaca, Arábia, Bacurau. Viajar por cada um desses filmes, desses anos, trouxe as inevitáveis boas lembranças, as ruins. Por menos que goste da obra de François Truffaut como um todo – prefiro, da nouvrelle vague, Godard, Rohmer, Jacques Démy, Rivette e, claro, Chabrol, meu favorito -, sou truffautiano no sentido de que creio em seu grande tema. A saudade das coisas mortas que permanecem vivas na lembrança, das coisas vivas que já estão desaparecendo. Esse ‘desaparecendo’, certas cores, é terapêutico. Doi, mas passa. Fui acompanhado em janeiro de 2018 às Cataratas do Iguaçu. Foi há dois anos, ou há 20? Comprei uma coruja niquelada como chaveiro e as cores, que eram lindas, sumiram. Olho agora o chaveiro e ele virou metáfora para mim. Gostei da minha lista, não sei se os leitores vão gostar. Não importa – cada um que faça a sua. Meu último post havia sido sobre a questão racial, o Caso João Pedro, o assassinato do garoto negro pela polícia no Rio. Houve esta semana outro assasssinato nos EUA, embora oficialmente aquele homem negro não tenha morrido asfixiado pelo policial, mas por complicações decorrentes. Nos EUA, os protestos têm reeditado os riots dos anos 1960. Donald Trump reagiu com a promessa de que as armas vão falar. É ano de eleição, e ele fala para seu eleitorado reaça. Espero que perca. No Brasil, tem sido esse horror. O mundo despenca, os números da rejeição a Bolsonaro aumentam, o presidente invoca a liberdade de expressão. Conseguirão o STF e o Congresso conter as milícias? Sobre os melhores filmes brasileiros desses 20 anos, ao selecionar os filmes de Eduardo Coutinho peguei-me pensando que Coutinho, afinal, havia ajudado a mascarar o Brasil real, com suas conversas que traziam só o melhor das pessoas. Em conversa com George Moura, foi meu amigo quem me lembrou. No Edifício Master, quando Coutinho pergunta ao síndico como ele consegue manter a ordem no prédio, com sua população tão heterogênea, a milícia já estava lá, enrustida. A gente é que não percebia, achava graça. A resposta – “Comigo é assim. Se não funciona Piaget, Pinochet!” Essa atitude chegou agora ao palácio. Os cães de guerra sentem-se legitimados para mostrar quem são. O isolamento tem me ajudado a me entender melhor, e entender o País.

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