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Petra e Leni Riefenstahl, uma associação equivocada

Luiz Carlos Merten

11 de fevereiro de 2020 | 08h59

Não sei como, mas cá estou com meus botões, e mais animado. O não sei como refere-se ao fato de que desci para tomar café, como sempre – nunca tomo em casa -, e na TV passavam as imagens de destruição da chuva. Obviamente que as condições climáticas se alteram e a natureza reage com violência à violentação do meio-ambiente, embora os milicianos da Terra plana defendam que uma coisa não tem nada a ver com outra. Ah, é? As chuvas de verão são devastadoras, todo mundo sabe disso – desde antes de Tom e Elis -, a questão é de planejamento. Ou melhor, falta de. E, claro, social. Essas pessoas que insistem em morar em áreas de risco são suicidas. Não têm condições de pagar? Mas ainda tem tanta marquise sobrando no Centro. Ironizo, claro. Ontem, estava no táxi, indo para o Cinesesc para assistir ao Ken Loach na Seleção do Rio. O rádio estava ligado, passava das 6 da tarde, numa dessas salas de redação em que todo mundo disserta sobre tudo – política, arte, economia. Os comentaristas comemoravam a derrota de Petra Costa no Oscar. Para eles, Democracia em Vertigem seria uma peça de propaganda e Petra, a Leni Riefenstahl dos trópicos. Ouvi uma aula de documentário que me pareceu mais de jornalismo audiovisual. A verdade tem de ser respeitada, o filme, como o bom jornalismo, tem de ser isento. Até concordaria, em tese, quanto ao bom jornalismo – que os coleguinhas no ar não praticavam, ou não praticam (não ouço o programa todo dia), porque estavam muito mais para milicianos radiofônicos. Documentário não é jornalismo, não tem de ser isento, e muito menos um documentarismo pessoal, passional, como Petra pratica desde sempre, e não é de agora, para servir ao PT e à tese do impeachment como golpe, por mais que essa seja contestada (pelos apoiadores do poder). Lá atrás, em 2012, Petra já sinalizava nessa direção com o documentário sobre a morte de sua irmã, Elena, um filme do qual nem gostei tanto, admito, até porque, naquele momento, a forma dela de falar na primeira pessoa me desconcertou. Mas vieram depois Olmo e a Gaivota e Ninguém Está Olhando, e aí não dava mais para ignorar sua autoralidade. É uma das vozes mais interessantes do cinema brasileiro atual. Cheguei ao Cinesesc e contei, ingenuamente chocado, o que havia ouvido. Me citaram uma polêmica entre Pedro Bial e Petra, em que o cineasta a quem respeito – e defendi -, por Outras Estórias e Jorge Mautner, Filho do Holocausto, criticou o filme de Petra e o desautorizou, foi o que entendi do que me disseram, porque seria muito mais uma peça edipiana, para Petra ficar bem com a mãe. Não sei se foi isso, e se fosse? Bial tem cultura suficiente para saber que o Complexo de Édipo está na origem de mais grandes obras do que conseguiria citar, a começar por uma peça de um tal de Sófocles, há milhares de anos considerada patrimônio da humanidade. Procurei na internet e Bial pediu arreglo, paz. Paz, então. Ah, sim, o programa de rádio era na Jovem Pan e eu não quero nem saber quem eram os jornalistas isentos.

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