Perigo no ar
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Perigo no ar

Luiz Carlos Merten

29 Janeiro 2014 | 12h27

TIRADENTES – Não é que o segundo longa da Aurora tenha me decepcionado. O Bagre Africano de Ataleia, de Aline X e Gustavo Jardim, tem muita coisa interessante. Começa como Tabu, de Miguel Gomes, sem o jacaré, e possui elementos parecidos com Tio Bonmee, de Apichatpong Weerasethakul, mas na verdade isso é irrelevante e o filme me pareceu bastante original na sua investigação do universo mineiro. Parte de uma caçada, mesmo que seja uma pescaria – ao homem-bagre. Quando ele aparece, a sensação é de que fugiu do set de Piratas do Caribe, com Johnny Depp. Achei bem intrigantes as ‘camadas’ – o benzedor, a expectativa dos animais, a preparação das armas, o linguajar mineiro. Mas a busca e a caçada, lá pelas tantas viraram a mesmice em que corre o risco de se transformar a seleção da Mostra Autora. Essa história de filme processual está fazendo com que todos mais ou menos se assemelhem. O veio vai terminar se exaurindo. A Vizinhança do Tigre até que fugiu ao filão, e agradeço ao diretor Affonso Uchoa por isso. A própria intervenção dos críticos, na hora do debate, entra na mesmice – a academia criou um tipo de abordagem e, pior, um tipo de nomenclatura (ou jargão), que ficam repetindo. Deus do céu! As melhores coisas que tenho visto aqui são de outras mostras. O filme do Murilo Salles, Passarinho Lá de Nova Iorque, na mostra Autorias, os de Cristiano Burlan, Amador, e Ricardo Miranda, Paixão e Virtude, na Sui Generis. Não estou esquecendo do magnífico A Gente, de Aly Muritiba, na mostra Transições, mas esse eu já conhecia do Festival do Rio. Já fiz meu mea culpa por haver confundido o diretor Cristiano Burlan com o ator Henrique Zanoni em Amador, mas isso não chegou a afetar meu sentimento pelo filme, embora Henrique, como diretor do filme dentro do filme não seja a mesma copisa que Cícero Filho, o diretyor de verdade, chorando no Passarinho de Murilo. Aliás, já aproveitei para corrigir o nome do Cìcero. Coloquei correto no jornal, mas aqui o chamei de Cícero Luiz. Está feita a correção.Impactei com a livre abordagem de Ricardo Miranda para o jovem Flaubert de Paixão e Virtude. Um filme sobre a palavra. Sim, mas não só. Paixão e Virtude narra uma história de amor e desejo. Uma mulher casada se envolve, ardorosamente, com outro homem, e por ele chegar a matar o marido. O fogo arde na lareira como a paixão incendeia o verbo, mas o tom é gélido. Tableaux vivants. Pintura teatralizada, antinaturalismo extremo. Amei. O filme abre-se com uma púbis. Uma garotada começou a rir de nervosismo. As cenas de sexo provocaram incômodo em algumas pessoas, que deixaram a sala. É incrível como isso ainda continua sendo um tabu. Eu estava em êxtase. Desde a homenagem a Marat Descartes com seus amigos do teatro no palco do Cine-Tenda, a ligação entre teatro e cinema tem andado muito forte aqui. Meu amigo dramaturgo, Dib Carneiro, que me acompanha, todo dia tira sarro. Tem certeza de que é festival de cinema?, pergunta.

Mais conteúdo sobre:

Mostra de Cinema de Tiradentes