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Periferia e sincretismo no Filme de Verão

Luiz Carlos Merten

01 de abril de 2019 | 00h29

Quando entrevistei Cristiano Burlan, na estreia de Elegia de Um Crime, ele estava feliz da vida. Ia fazer sua primeira ficção, e com recursos já captados. Encontrei-o ontem à noite, domingo, no Cinesesc, onde fui ver Filme de Verão na Mostra Tiradentes em São Paulo. O TCU embargou todas as liberações de recursos. Estava todo mundo preocupado com a produção do ano que vem, pois é, tudo indica que a máquina já vai emperrar este ano. A notícia não é boa para a classe cinematográfica. Sobre o filme de Jô Serfaty, gostei muito de Filme de Verão. Depois de A Rosa Azul de Novalis, hors concours, está sendo a melhor coisas que vi na Aurora deste ano. Um filme sobre os corpos adiante – pulsantes – da periferia, sobre esses garotos e garotas que, como diz a diretora no catálogo da Mostra, estão existindo e não resistindo. O filme é sobre eles, seus sonhos, seus desejos, não sobre o espaço ao redor, seja a favela ou a escola. Os jovens com seu linguajar, sua musicalidade. O mundo – Rio das Pedras – afetado pela falência do Estado, que contamina tudo. Adorei o garoto que canta com a avó os pontos de umbanda e que, num determinado momento, vira evangélico, para voltar, instintivamente, quando falta luz e acende a vela, aos cantos da umbanda. Quando garoto, ia com minha mãe a um centro espírita. Seu Léo era o pai de santo. Até hoje ecoa nos meus ouvidos o ponto de abertura das sessões – ‘Ó senhor Oxalá, tuas atribulação/E os espíritos franciscanos nos protejam/Eles se lembrem das nossas petições/E nos atendam, segundo seus corações’. Como uma madeleine, o filme de Jô me fez reencontrar um tempo (perdido?) no meu inconsciente. O incrível é como essas coisas vêm, e com força.

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