As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Pequenas surpresas do cotidiano em Paris

Luiz Carlos Merten

24 de fevereiro de 2016 | 06h18

PARIS – Na porta da Filmoteca dom Quartier Latin, um cartaz anuncia, num único horário, Palavras ao Vento, Written on the Wind. Ao contrário de Imitação da Vida, que tenho conseguido rever com frequência na TV paga – e a cada visão descubro novas coisas, o que é típico dos grandes filmes -, fazias muito tempo (décadas?) que não revia o pré-Dallas. Rock Hudson irrompe na casa de uma família de milionários do petróleo. Robert Stack e Dorothy Malone são irmãos, ele é o típico homem vacilante de Sirk e Lauren Bacall, a mulher que se reforça para manter a família unida. Rock não tinha o nome por acaso. É uma fortaleza. E pensar que na vida, era um gay forçado pelo estúdio a se manter no armário. A Universal até arranjou u7m casamento de fachada com uma secretária, para manter as aparências. Palavras ao Vento é admirável, mas não creio que seja melhor que Imitação da Vida, cujo enterro final é das cenas mais belas filmadas. No cartaz de Palavras há uma frase atribuída a Rainer Werner Fassbinder. “Vi seis filmes de Douglas Sirk (os melodramas, pergunto-me eu?). Alguns são os maiores filmes que já vi.” Lembrava-me da cenas emblemática de Palavras – Dorothy, bêbada, dança enlouquecidamente e, em paralelo, morre o patriarca. Dorothy, de novo, no fim, abraça-se à pequena escultura da torre de petróleo, que foi o que lhe sobrou, após a partida de Rock Hudson. Pobre menina rica. Luchino Visconti, que também amava o melodramas, compartilhava com Sirk o gosto pelas tragédias familiares. Sirk dizia que seu modelo sempre foi a tragédia grega, em que tudo ocorre dentro da família. Mas não vi só um filme de Sirk. Vi dois, e o outro era inédito para mim. Scandales à Paris, a cinebiografia de Vidocq, com George Sanders. O criminoso que, por amor, regenerou-se e virou chefe de polícia de Paris. Ainda não é um grande Sirk, mas vi com imenso prazer. Sanders forma dupla de assaltantes com Akim Tamiroff. Posam para um quadro religioso. Sanders, o santo, lança em punho, tem de matar o dragão, Tamiroff. Todo homem, diz o padre, carrega em si o santo e o dragão, o bem e o mal. No desfecho, Sanders/Vidocq tem de matar Tamiroff, que se voltou contra ele. Liberta-se. Era um tempo em que o cinema simplificava questões complexas para ser eficiente. Na festa de cinema que é (sempre) Paris, minha meta, nesta quarta-feira, é rever Le Convoi Sauvage, Fúria Selvagem, de Richard C. Sarafian, centrado no mesmo personagem de Leonardo DiCaprio em O Regresso. Por mais que tenha gostado do novo Alejandro González-Iñárritu, principalmente em oposição ao anterior – Birdman -, o Sarafian não tem comparação. Tenho tido agradáveis surpresas. Quem me acompanha no blog já me ouviu falar do Sarafian de Corrida Contra o Destino e Fúria Selvagem. Na Cahiers de fevereiro, O Retorno é despachado rapidamente, mas há uma referência ao ‘grande’ Sarafian. E, agora não me lembro mais se foi em Cahiers ou Positif, também de fevereiro, o lançamento em DVD de The Detective/Crime sem Perdão, de Gordon Douglas, com Frank Sinatra, recebe o status de obra-prima e Douglas é tratado como grande autor méconnu. Pouco conhecido ou valorizado só se for por Cahiers, que faz mea culpa. O Douglas dos westerns e policiais sempre esteve no meu panteão.