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Pensando, pensando…

Luiz Carlos Merten

25 Julho 2012 | 10h02

Sorry, Jota – de novo. Foi muita arrogância minha ter acrescentado o post de ontem, que, depois, quase deletei, mas deixei, para os records. Mas havia chegado muto impactado da sessão de ‘O Cavaleiro das Trevas Ressurge’ e o tom do post do Jota, o reacionário mas bom – como Goethe, que é reacionário mas grande, cheguei a pensar numa provocação à altura da minha, sobre o Fausto de Christopher Nolan –, me fez o sangue ferver. Tolice. Passei ontem o dia numa agitação intensa. Pensando, pensando… Me vinha um ditado da minha infância – ‘Pensando morreu um burro’, que adorávamos repetir na escola. O que mais me perturbou no ‘Batman’ final de Nolan foi a lágrima do vilão, Bane, quando se desenha o quadro final, de apocalipse, montado para Gotham City. Bane, que quebrou a espinha do herói. Por que chora o vilão de Christopher Nolan? E por que Tom Hardy, um ator em ascensão, se privaria do seu rosto – que aparece brevemente, por segundos, num único plano –, para representar com aquela máscara para respirar que evoca, no meu imaginário, Darth Vader. Pai e filho, lembram-se? Por que Nolan quis Tom Hardy? Pelos olhos, pela lágrima, com certeza. Mas por que ele chora? Pela devoção, mas também por algo mais que cabe a nós, o público, identificar/reconstituir. É bastante significativo que, ao contrário do título, ‘The Dark Knight Rises’, o novo ‘Batman’ é sobre a implosão do herói, para que Bruce Wayne, liberto do mito, possa prosseguir como homem. É o teor dos diálogos de Michael Caine com Christian Bale, quando ele diz que o mundo precisa mais de Bruce Wayne que do Cavaleiro das Trevas. Brecht, sim. Quem quer o Batman de volta, quem luta por ele é o policial esquentadinho, que vem do orfanato e que tem familiaridade com o subterraneo, onde ocorre tudo. O movimento occupy, o laboratório de pesquisas do herói, as chaves da revelação de sua (dupla) identidade. Há um mundo que se move no subterrâneo, contra o outro, da superfíucie. O chefe de polícia que glorificou o vilão, Harvey Dent, criou uma mentira em nome de uma causa respeitável, mas a revelação da verdade – fala-se muito nela –, provoca a náusea em Joseph Gordon-Leviott, que se desliga da polícia, para fazer, em novas bases, outro movimento social, trabalhando com os garotos do orfanato. Todo poder ao povo, em nome de quem agiram os vilões, e da implosão do Batman, transformado em estátua – mas as estátuas não têm olhos, como observava Rex Harrison/Júlio César na ‘Cleópatra’ de Joseph L. Mankiewicz, vai surgir… o Robin. Nolan é gênio? Ele usa o estasblishment, o cinema de massas, para refletir sobre o mundo. Um filme de super-herói que discute o seu herói? Numa trama de ação ininterrupta, são os diálogos que valem. Como é mesmo que diz Miranda Tate/Marion Cotillard, logo no começo, ao milionário, desafeto de Bruce Wayne – “Não vou perder tempo com o poder que você acha que seu dinheiro pode comprar.” O poder, quem o representa, não um Mefisto, ex-machina, mas interno, dentro de cada homem. No poço de Ra’s Al Guhl, a discussão sobre a alma, que é o que importa. Selina (Anne Hathaway) diz que fez o que devia ter feito para sobreviver, mas essa Scarlet O’Hara sonha com a ficha limpa e a nova identidade, a segunda chance, o mais hollywoodiano dos temas. O cinema é o território de Nolan, vejam ‘A Origem’. É sobre isso que ele quer refletir. Desmontar os mitos, desde o interior. E aí vem um maluco, um Coringa real e que não entendeu nada, e causa aquele estrago na madrugada de sexta-feira. Nolan e Steven Spielberg, o da trilogia, são, talvez, os únicos autores classe A – Michael Moore fica de fora – que têm noção do que se passou na ‘América’, na última década, e fizeram filmes sobre isso. Ontem, assisti a um pedaço do Jornal Nacional. Diante da explosão de violência em Alberta, o que os norte-americanos fizeram, ou estão fazendo? Desde sexta, a compra de armas aumentou 40% no Colorado. Arthur Penn, o grande, construiu toda uma obra para mostrar que os EUA só conseguem resolver seus conflitos por meio da violência. ‘O Cavaleiro das Trevas’ é sobre tudo isso. Na entrada da sessão de ontem de ‘Batman’, encontrei Isabela Boscow, que estava indo rever o filme. Desde a semana passada, Isabela reviu o 1 e o 2. Comentei com ela, na saída, que estava impactado, mas por mais maior e mais complexo que seja o 3 (que eu ainda tento ‘entender’), o 2 me parecia melhor pela mise-en-scène. Ela me disse que tinha ido rever porque também havia pensado isso, mas não, que o 3 é the best. Será? Detesto ‘Veja’, mas respeito a Isabela, mais por nossas (raras) conversas do que pelos textos, que não leio. O que não tenho dúvida é de que, independentemente de ser o ‘maior’, ‘Batman 3’ é grande.