As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Diego!

Luiz Carlos Merten

26 de novembro de 2020 | 22h50

Vocês não conseguem imaginar como ando me sentindo mal. Começou no domingo à tarde, depois de almoçar e ir ao cinema. Chegueri em casa vomitasndo, com dor no corpo. A fadida durou a semana inteira, mas na quarta tive um resultado negativo para Covid. Fiz outro exame que sai amanhã e o que terminei descobrindo foi uma infecção urinária grave. Chego nessa hora do dia me sentindo acabado. Assistir ao noticiário de TV não tem ajudado – a desgraceira sem fim. A morte do homem negro no Carrefour, em Porto Alegre. A funcionária que deu depoimento – não teve condições de defender o cara porque estava doente! Mas curioso, né, esteve bem ativa tentando evitar que as pessoas documentassem a agressão com celular. O racismo estrutural, como a desigualdade e as formigas, são a desgraça do Brasil. Confesso que chorei. A morte de Diego Armando Maradona provocou uma comoção, e não apenas na Argentina. A frase mais reveladora – não importa o que ele vez com a vida dele, mas o legado dele em nossas vidas. Sempre houve a competititivade entre Diego e Pelé. O gênio e o rei. Diego virou deus para os argentinos, que já haviam elevado Carlos Gardel, Evita e Perón ao patamar de suas divindades. Ele veio das classes baixas e nunca renegou a origem. Admirava Fidel e o Che. Exagerou nas drogas, quase acabou com a própria vida. Encarnou o herói imperfeito em dois continentes – na Bombonera e no Estádio San Paolo, do Nápoli, que agora terá seu nome. Em toda a sua carreira, fez apenas 300 gols, uma insignificância diante dos 1000 de Pelé. Todo respeito ao atleta Pelé, mas, como ‘personagem’, quem é mais interessante, Il Matto, ou o sujeito que dedicou o miléssimo gol às criancinhas? Tive o privilégio de conhecer os dois. Com Pelé foi uma entrevista quando Anibal Massaini Neto reconstituiu o milésimo gol – perdido – por computação gráfica. Maradona conheci em Cannes, brevemente, quando Emir Kusturica apresentou Maradona by Maradona. A imprensa construiu hoje a fantasia de que eram amigos e se respeitavam além da conta. Até podia ser, mas também se alfinetavam. Em Cannes, Maradona disse que, se não fosse a cocaína, pobre Pelé. Não seria nem o segundo melhor do mundo. Gosto demais do Kusturica, que compra a provocação e destaca o homus politicus como a suprema criação de Diego Maradona. Para mim, são os dois filmes mais belos sobre futebol, ambos ensaísticos. O Kustrica e o Zidane de Douglas Gordon e Phillippe Parreno, A 21th Century Portrait. Estou aqui todo dolorido. Tenho de parar, mas precisava fazer esse post. Mesmo no auge da forma, Maradona parecia fora de forma. Media 1m65, lutava contra o peso. De onde tirava aquela energia? Só um gênio. Seus gols contra a Inglaterra pertencem à história.