As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Pedaços de vida

Luiz Carlos Merten

01 de agosto de 2014 | 09h35

Desertei do blog nos últimos dias, mas foi por boas causas – no plural. Andei fazendo um monte de entrevistas. Com Adrien Brody foi uma conference call, mas pude lhe fazer algumas perguntas com o gancho de sua participação no Houdini da TV, que estreia só no fim de setembro. Como é criar um personagem histórico, real e bem documentado, mas que, na essência, ainda nos escapa? Qual foi a chave que ele usou para fazer seu Houdini? O homem desandou a falar – de suas ansiedades, medos, desejos. Foi bem interessante. Perguntei também sobre a parceria com Wes Anderson e o vilão de Grande Hotel Budapeste, e de novo ele desencantou numa conversa sobre o prazer das descobertas. Anderson, Roman Polanski – O Pianista. Os grandes diretores levam o ator numa viagem de descoberta que não acaba mais. Ontem, tive um encontro com Tony Gatlif, o mais cigano dos diretores franceses, sobre seu Geronimo, que esteve em Cannes, em maio, e deve estrear nas próximas semanas. Geronimo é sobre uma éducatrice numa comunidade carente, no meio dos conflitos entre clãs de turcos e ciganos. Romeu e Julieta, de novo. Tony Gatlif, de Exils, cria cenas maravilhosas, momentos arrancados à própria vida. Morceaux de vie, como lhe disse. Ele adorou a definição. Os críticos reclamam que seus roteiros são fracos, mas ele me disse que os outros veem como defeitos o que, para ele, são suas qualidades. Geronimo converge para um duelo musical, um embate entre os dois clãs. A música foi feita antes, claro, e a cena foi coreografada e filmada com uma câmera apenas. Muito interessante. Comentei com ele que seu filme tem esses morceaux musicais e que o de Nuri Bilge Ceylan, que ganhou a Palma de Ouro – Winter Sleep -, tem também cenas muito elaboradas, mas de diálogos. A música, para um. A palavra, para o outro. Gatlif me disse que Ceylan admira seu cinema, e que ele também admira o dele. Quando se encontram, conversam sobre a paixão. Quando jovem, um garoto das favelas de Argel, que teve a sorte de encontrar pessoas que o desviaram de uma vida na criminalidade, Gatlif descobriu o Cinema Novo na Cinemateca Francesa. Identificou-se com Glauber Rocha e amou Antônio das Mortes/O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Queria saber mais de um filme que o marcou muito. Uma família muito pobre de retirantes, com um cachorro. Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, d’après Graciliano Ramos. Mais que uma entrevista, foi um encontro. Como também tive outro com Lita Stantic, a produtora argentina que integrou o júri internacional do recente Festival de Cinema Latino-americano (e que premiou Refugiado, de Diego Lerman). Fui apresentado a Lita quando estávamos na barraca em frente à tenda montada na Praça Cívica. Ela comia uma empanada, eu bebia um vinho. Lita me contou que, como chefe de produção, trabalhou muito com Maria Luisa Bemberg. Mais recentemente, produziu os filmes de Lucrécia Martel. La Bemberg foi a protofeminista do cinema argentino, em filmes como Señora de Nadie, Camila e Miss Mary. Viajei nas minhas lembranças, quando via esses filmes em Buenos Aires, nos anos 1970. Era garoto, tentava decifrar os mistérios das mulheres e do cinema. Depois, descobri que o bom é não decifrar nada, mas deixar fluir. Conversamos, Lita e eu, sobre Leopoldo Torre-Nilsson, que foi, na arte e na vida, um jogador. Torre-Nilsson arriscava tudo, nos filmes como nos cassinos. Às vezes, perdia tudo e ficava sem um puto. Sua fama sempre foi de Ingmar Bergman menor, como Walter Hugo Khouri no Brasil. Injustiça. Com a mulher, a escritora e roteirista Beatriz Guido, a obra de Torre-Nilsson dá um testemunho importante sobre as oligarquias argentinas de seu tempo. E eu gosto muito de alguns filmes dele. La Casa del Angel, Um Guapo del 900. Lita acrescentou Homenagem à Hora da Sesta, que Torre-Nilsson realizou na Amazônia, em coprodução com o Brasil e a França. Quatro viúvas de missionários, entre as quais Alida Valli e Alexandra Stewart. Descobrem que apenas um dos maridos foi um herói. Quem? Jorge Luis Borges, o tema do herói e do traidor, que anos mais tarde inspirou Bernardo Bertolucci em A Estratégia da Aranha, também com a Valli, curiosamente. Sei que tem gente que acha que o trabalho como repórter contamina a apreciação do crítico. Prefiro correr o risco a me furtar a esses breves encontros. Pedaços de vidas, como nos filmes de Tony Gatlif.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.