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Paulo Branco, produtor guerrilheiro

Luiz Carlos Merten

09 de março de 2014 | 14h03

Escrevi a palavra enfeitiçamento num  texto sobre Kenji Mizoguchi, repetindo o que diz Jean Tulard no Dicionário de Cinema. Ontem lembrei-me disso por conta de Paulo Branco. Infelizmente, havia-me esquecido de postar, chamando para o encontro com o diretor, que veio prestigiar a retrospectiva de seus filmes no CCBB. Esqueci-me de postar, chamando meus (parcos) leitores, mas cronometrei a sessão de filme equatoriano na Galeria Olido para dar tempo de chegar ao CCBB. Já havia começado, mas eu inventei sei lá que história – de que tinha de escrever matéria – e terminaram me deixando entrar. Foi maravilhoso. Paulo Branco é um grande contador de histórias. Manteve a plateia enfeitiçada narrando casos de seus encontros com grandes diretores. Cada filme é uma aventura, e seus relatos sobre Manoel de Oliveira, Raoul Ruiz, David Cronenberg, Alain Tanner etc, nos mantiveram (coloco-me no meio) siderados. Ele contou coimo Mistérios de Lisboa foi submetido à comissão de seleção de Cannes. O próprio Thierry Frémaux não vou o filme, delegando a outros a tarefa de vê-lo. Criou-se um tititi, Frémaux viu, mas Gilles Jacob disse que a seleção já estava fechada e não a reabriria. Tem de ter o culhão de um Paulo Branco, sorry, para enviar a M. Jacob a mensagem desaforada. “Vocês já não selecionou filmes meus que são obras-primas. Pior para o seu festival.” No imaginário de ambos., Ruiz e dele, Os Mistérios é cria de O Tempo Reencontrado. E ele revelou – durante a filmagem, Ruiz lhe disse que estava com câncer. Não sabias se conseguiria levar o filme até o fim e até deixou a critério de Paulo Branco se seguiriam em frente, ou parariam. Lutaram ambos até o fim – Paulo Branco para conseguir o dinheiro que faltava, Ruiz para concluir sua obra-prima. O grande cineasta entrou em coma. Fizeram-lhe um transplante de fígado, coisa muito complicada, com poucas chances de dar certo. Branco, enquanto isso, levava a montagem adiante. Ruiz sobreviveu – por mais seis meses – e Branco brincava. ‘Agora ele vai ver a montagem e vai nos dar um tiro.’ A fórmula do produtor – ‘Inventa-se um filme são almoço e filma-se-o ao jantar.’  Foram quase duas horas de encantamento. De enfeitiçamento, melhor dizendo. Embarco daqui a pouco para o Rio, para a junket de Alemão e, amanhã, para Los Angeles, para o Capitão América 2. Devo ser louco. Amei o Paulo Branco guerreiro, mas brigaria para defender o autor do Capitão América 1,  Joe Johnson, que me parece um diretor bem estimável. O 2 é dirigido pelos irmãos Russo, Anthony e Joe. Sei  lá o que vão fazer. Johnson eu sabia que era um autor, lutando para fazer sempre o mesmo filme (sobre família), como Branco luta para servir aos diretores com quem escolhe trabalhar (ou compartilhar as aventuras). Não sei quanto Branco ainda permanece no Brasil. O ciclo de seus filmes continua. O dos equatorianos, também. A retrospectiva de Paulo Branco ganhou o título de Produção Criativa. Por suas histórias, poderias ser produção de guerrilha.

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