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Paul Verhoeven a olho nu (2)

Luiz Carlos Merten

08 de setembro de 2020 | 20h03

Num post anterior, sobre RoboCop, referi-me ao livro de Emmanuel Burdeau, das Editions Capricci, com a entrevista que ele fez com Paul Verhoeven. O diretor reflete sobre seu começo em Hollywood. Estreou com um épico medieval que fracassou na bilheteria – Flesh and Blood. Poderia ter acabado com a carreira de Verhoeven, mas ele recebeu um conselho de Mike Medavoiy, executivo da Orion, que produzira Conquista Sangrenta (título brasileiro). Medavoy aconselhou-o a se integrar na indústria, a seguir o fluxo das tendências em voga. Verhoeven admite que se surpreendeu quando a Orion lhe enviou o roteiro de RoboCop. Tendo perdido dinheiro com ele, achou que nunca mais fariam negócio. O curioso é que ele leu e achou um lixo. A ficção científica não era sua praia. Bateu boca com a segunda de Medavoy, mas o filme recebeu uma defensora inesperada na mulher de Verhoeven. Estavam em férias em Antibes, Martine leu e lhe pediu que reconsiderasse. Disse que tinha certeza de que ele poderia fazer algo interessante. Verhoeven releu e descobriu seu viés. Já naquele tempo, há mais de 30 anos, ele sonhava com um filme sobre Cristo. Até escreveu, posteriormente, um romance. Na ressurreição do policial como máquina – como homem biônico -, ele admite que encontrou o seu Evangelho (violento). Também tomou uma decisão ousada, ao integrar a publicidade de TV ao relato. Numa dessas cenas, um dinossauro provoca pânico nas ruas da cidade. Verhoeven conta – rindo – que muitos espectadores ficavam confusos e alguns até se queixavam à gerência dos cinemas de que havia rolos trocados, de outros filmes. RoboCop custou US$ 13 milhões e rendeu US$ 130 milhões somente nos EUA. Foi um sucesso para ninguém botar defeito. Seguiram-se O Vingador do Futuro, Instinto Selvagem, Showgirls, Tropas Estelares. Esse último foi chamado de fascista, por conta do autor do livro – Robert Heinlein, um dos mais controversos autores de sci-fi. A partir daí, Verhoeven tornou-se bissexto, um filme a cada seis anos, Homem Sem Sombra, Black Book, Tricked, depois quatro, Elle. O que ele conta sobre a colaboração com Isabelle Huppert, a forma como avalia a parcerias dela com Michael Haneke, é muito lúcido, muito rico. Sempre gostei de Paul Verhoeven, e o livro do Burdeau, A L’Oeil Nu, me fez gostar mais ainda.

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