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Parte 2, Marília Gabriela na Casa de Bonecas

Luiz Carlos Merten

03 Dezembro 2018 | 09h06

Cheguei em casa cedo, ontem, de novo. Às 11 da noite já estava na cama, lendo – o Viva! de Patrick Deville. Havia começado esse post, que deixei para concluir agora pela manhã. Guardo uma lembrança um tanto distante de Casa de Bonecas, que Joseph Losey adaptou de Ibsen, com Jane Fonda no papel de Nora. No fim dos anos 1960 e início dos 70, Jane se convertera em ativista contra a Guerra do Vietnã e em defesa dos direitos das mulheres, com um discurso forte contra a hegemonia masculina na indústria. Por melhor atriz que fosse, e continua sendo, muitos críticos a acharam ‘miscast’ no papel. Jane/Nora não precisaria de um filme inteiro para sair por aquela porta. Aliás, já teria saído antes que o filme começasse. Lembro-me da neve, dos interiores aquecidos e da mise-en-scène ritmada pelo abre e fecha das portas que mantinham Nora prisioneira na casa de Torvald. Fui ver ontem à noite Casa de Bonecas – Parte 2, que encerrava temporada no Tucarena. No texto de Lucas Hnath, autor que não conhecia, Nora, 15 anos depois, está de volta à casa de Torvald. Não vem pedir arreglo nem tripudiar, mas sim porque, decorrido todo esse tempo, ela descobre que o marido não pediu divórcio e, portanto, continuam legalmente casados. Nora vem para formalizar a separação. O teatro nunca mais foi o mesmo depois da peça de Ibsen. Quando Nora surgiu para o mundo, em 1879, uma mulher que saía de casa batendo a porta atrás dela – e abandonando marido e filhos – era motivo de escândalo. Na verdade, tanto tempo depois, talvez ainda seja. Passados quase 140 anos, Nora virou um ícone da luta feminista. Volta para novos combates, pois há muito para conquistar ainda. Hnath poderia ser simplesmente um louco ou um suicida – imaginem, criar uma sequência para tamanho clássico do teatro universal. Ele ousou, e conseguiu. Assisti no Tucarena a belíssimas montagens de Gabriel Villela, que sabia, melhor que ninguém, ‘vestir’ aquele espaço de arena, basta lembrar da sua Tempestade, em que Celso Frateschi estava magnífico. Radicalizando a pista do autor, que propõe uma sala vazia como cenário único para expressar o que se tornou a vida de Torvald depois que a mulher o abandonou, a diretora Regina Galdino manteve a arena despojada, despida, com apenas cinco cadeiras. Toda a força deve vir das palavras e das interpretações. O texto é rico em observações sobre o direito de Nora, ou de qualquer homem ou mulher, de escolher o que for melhor para si. Nora admite que teve seus momentos de fraqueza, pensando nos filhos. Quando a fiel Anne Marie lhe cospe na cara que foi fácil, para ela, rica, bem nascida, ir embora, deixando os filhos a cargo da governanta, Nora retruca que foi escolha de Anne sacrificar-se por eles. Nora se exaspera diante da filha, que lhe parece cópia do que foi, e tem pressa de mudar o mundo – quer ver um futuro de mulheres libertas. O problema é que não se pode viver a vida dos outros. A filha terá de cometer os próprios erros, para amadurecer (ou não). Torvald termina por aceitar que essa outra Nota talvez seja mais interessante também para ele, mas o tempo passou para ambos. Riem ao contar-se suas aventuras. Estão irremediavelmente distantes. O tema de Hnath é justamente o tempo que não pára, são esses 15 anos. Nora sentia a insatisfação crescer, mas nunca traiu o marido. Tornou-se criminosa, como diz, depois. Teve amantes, incontáveis. Acredita no amor, não no casamento. É interessante, mas o paradigma de Nora foi ter rompido o contrato social. Se ela tivesse permanecido, poderia ter tido tantos amantes quanto quisesse e seria tolerável, mantida a ordem burguesa. Trair e coçar, é só começar. Gostei do texto, da concepção cênica, de ter visto, em suma, mas não estou muito seguro de haver apreciado a interpretação. Marília Gabriela é sempre tão… Marília Gabriela! E Luciano Chirolli cria um Torvald ansioso, nervoso, cheio de tiques, meio ridículo. Eu o vejo mais como um personagem trágico, mas pode ser que me engane. Sobre a ‘sequência’ – é curioso, mas recentemente tivemos também aquela continuação russa de Anna Karenina, um filme em que o filho de Anna, já adulto, reencontra Vronski, anos mais tarde. Imagino que leitores e espectadores sempre tenham construído sequências de livros, peças, filmes, imaginando o que ocorre com seus personagens preferidos. Lucca voltou ao paese? Estou viajando no final de Rocco e Seus Irmãos. A diferença é que hoje os Hnaths da vida não se vexam de tentar se ombrear com um gigante como Henryk Ibsen. Até conseguem – menos, Merten. Por interessante que seja, de acordo com o espírito do tempo, não é tão bom, claro.