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Paris vale(u) uma missa

Luiz Carlos Merten

14 de abril de 2014 | 10h05

Escrevi aquele post sobre o filme de Jorge Furtado no É Tudo Verdade – A Fábrica de Notícias – e misturei Bem Jonson, o dramaturgo, com o dr. Samuel Johnson, que dizia que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Exemplo disso é a cúpula militar que condena os soldados à morte para encobrir os próprios erros estratégicos no clássico Glória Feita de Sangue, de Stanley Kubrick. Dei ultimamente de atualizar a sentença do dr. Johnson – a ética anda substituindo o patriotismo… Gildo Araújo indignou-se e resolveu me dar uma lição. Citou uma frase de Lula, acho que no discurso de posse, e lembrou que o jornalista Mino Carta, um dos entrevistado de Jorge Furtado, apoiou o golpe militar, só depois – ou agora – manifestando sua indignação. E Gildo chama a isso de cinismo. Ou o Gildo é um grande pesquisador e foi às fontes certas, ou colheu as informações em textos de articulistas indignados, e esses em geral não estão informando de graça. Nunca.Se realmente apoiou o golpe, e tudo indica que sim, Carta teve a decência de ver que os militares, com o golpe, tomaram gosto pelo poder e no fundo estavam aliados com a grande burguesia – considerando-se a alta concentração de renda sob a ditadura. Esse era o xis da questão. O resto, e foi bárbaro, foi a violência nos porões da ditadura, que nem se pode dizer que foi uma coisa de ratos de porão porque o milico torturador, li em alguma parte, disse há pouco que se reportou mais de uma vez ao presidente da vez, que sabia de tudo o que se passava e, por isso, Glauber bajulou Golbery, o gênio da raça, que foi aliado (mentor?) de Geisel no desmantelamento do aparelho repressivo. As coisas não são simples. Governar é complicado. Exige uma base. Fazem-se concessões, o problema é sempre até onde ir. Penso muito em Clóvis, rei dos francos. Pagão, ele precisou se aliar à Igreja para governar a França. E disse – pelo menos passou à história – que Paris valia uma missa. Não há uma vez que eu vá a Notre Dame sem pensar nele.

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