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Paris! (Meu sonho de cinefilia)

Luiz Carlos Merten

03 de março de 2020 | 06h24

PARIS – Cá estou, mais uma vez – menos? Cheguei ontem à tarde, instalei-me num hotel do Quartier Latin – mas não no Sorbonne Design, que tem sido minha casa na capital francesa, nos últimos anos. Foi engraçado. Carlos, o físio, fez a reserva para mim. Achou o Sorbonne muito caro e procurou outro. Encontrou esse em que estou, na Rue des Écoles, e que é até melhor, para dizer a verdade. Merci, Carlôs. Em Berlim, este ano, não tivemos neve, mas chuva. Frio e chuva são uma combinação fatal. Paris também está chuvosa, uma chuva fina que entra nos ossos. A cidade continua sendo a capital da cinefilia. Em que outro lugar do mundo poderia ver, de cara, um Lubistch, um Buñuel e um Visconti? Domingo, ainda em Berlim, havia visto quatro filmes, incluindo o francês Police, com Omar Sy e Virginie Efira, e um duplo na homenagem a King Vidor – Duelo ao Sol e Ruby Gentry, que no Brasil se chamou A Fúria do Desejo. Em ambos, a indomável Jennifer Jones pega em armas para matar o homem amado – Gregory Peck no primeiro, Charlton Heston no segundo. Heston fez todos aqueles filmes que permanecem no meu imaginário – El Cid, El Cid, El Cid -, antes de manchar a própria biografia como porta-voz da Associação do Rifle da América. Macho p’a caraca. As cenas dele com Jennifer possuem uma sensualidade à flor da pele, mas é coisa dela, que faz uma Pearl Chávez que nunca saiu da minha cabeça em Duelo ao Sol. Embora existam dúvidas quanto à autoralidade do filme – produzido por David Selznick, teve cenas realizadas por William Dieterle -, para mim, Duel in the Sun é 100% vidoriano, com a épica luta pela terra no Oeste e a presença da mulher que desestabiliza a relação familiar, colocando irmão contra irmão, Peck e Joseph Cotten. Assim como filmava mulheres desejáveis, Vidor transformava homens em canalhas – Peck, Heston. Gente que vai ao fundo do poço – da mesma laia? – e se redime na morte. Em Paris, prossegui com Jennifer Jones, Cluny Brown – La Folle Ingénie, um dos últimos filmes de Lubistch, o último que ele conseguiu terminar, em que Jennifer é punida pelo tutor por beber como homem, com os homens, e ele a envia para ser doméstica na casa de uma família de aristocratas, onde se hospeda um exilado do nazismo que sonha escrever livros polítocos e ela, não apenas o seduz, como desvia do projeto original, escrevendo em dupla pulps que os tornam milionários. Falsa ingênua, a subversão da moralidade norte-americana, mas sem a carga do erotismo vidoriano. Diverti-me. Emendei com Nazarín e Noites Brancas, a versão de Visconti, em homenagem a Chiara Mastroianni, a quem devo entrevistar hoje. Também hoje à noite, Harry Kumel apresenta a versão restaurada de seu Lèvres Rouges, e Philip Kaufman está na cidade para apresentar seus filmes na Cinemateca. Na quarta reestreia um Joseph Losey que sempre quis ver, Time Without Pity, e também começa na Cinemateca o 8.º Festival Internacional do Filme Restaurado. Entre muitas atrações, poderei – espero – rever as versões restauradas de dois westerns da Columbia, Terra Bruta, de John Ford, e Os Profissionais, de Richard Brooks. No avião, e vindo de Berlim para cá, depois de todos aqueles filmes no festival, pensava que adoraria ver alguma aventura bem tradicional. Meu desejo foi atendido – a Filmoteca do Quartier Latin mostra na quinta um duplo de Fritz Lang, O Tigre da Índia e Sepulcro Indiano. Estou me sentindo como pato na chuvas. Feliz da vida. E hoje ainda tem aqui um evento pró Lula. Lula libre à Paris, organizado por artistas como Agnès Jaouï. Estarão presentes Lula, Dilma Roussef e Fernando Haddad. Quando soube tentei comprar ingresso, mas é livre e está esgotado. Vou tentar, mesmo assim. Enquanto isso, me contaram que Bolsonaro e Regina Duarte estão chamando para um ato, no Brasil, pró-fechamento do Congresso. Não é possível. Pior – conhecendo essa gente, é possível, sim.