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Paris está em chamas? Ontem estava, em Notre Dame

Luiz Carlos Merten

16 de abril de 2019 | 09h45

Mentiria, se dissesse que tive alguma premonição. Mas quem me acompanha no blog sabe que nesses 20 e tantos anos que viajo à França todos os anos, muitas vezes três/quatro vezes no ano, nunca deixei de visitar a catedral celebrada pela literatura e pelo cinema. Notre Dame! Gostava de sentar-me naquela nave para ficar admirando a estrutura, os vitrais. Quando havia missa com órgão, era uma beleza. Deixava-me levar pela imaginação. E nunca deixei de pensar, com temor, que nesse mundo tão polarizado – e no qual quem não está conosco está contra nós -, algo poderia ocorrer àquele patrimônio da humanidade. Em fevereiro, fiquei quase uma semana em Paris, antes de seguir para Berlim (e o festival). Não fui, no primeiro dia, ou no máximo no segundo, como sempre faço, visitar Notre Dame. E aí os dias foram se passando. Três, quatro, cinco, seis. Tinha sempre outra coisa para fazer. Somente no último dia, pela manhã – meu voo era à tarde -, fui a Notre Dame. Sentei-me, à frente, e fiquei matutando. Por que havia demorado tanto? E pensei, sem autocomiseração, que estou velho, alquebrado, talvez não me reste muito tempo para revisitar os lugares que amo. Monument Valley? Rever Notre Dame! Tive uma dor ontem ao ver a catedral em chamas, o topo caído e os escombros fumegantes. Durante a 2.ª Guerra, os nazistas – Hitler – quiseram destruir o Louvre. Insano. ‘Paris está em chamas?’ Ontem, estava. Leio que foram dez horas de incêndio e ainda não se sabe como, ou quanto, a estrutura foi comprometida. O procurador de Paris acredita que foi acidental. A catedral estava em restauro, estava em fevereiro, pode ser que tenha havido alguma falha de segurança. Por mais lamentável que seja um acidente, tomara que tenha sido. Seria acachapante imaginar que alguém poderia querer destruir um lugar tão rico em beleza e tradição. Ainda não decidi se estou indo a Cannes via Paris. Acho que não mais. Paris sem Notre Dame, ou como uma Notre Dame (semi)destruída… O que está ocorrendo com o mundo? A sensação é de que tudo está ruindo. Ontem, a Petrobrás anunciou os cortes de patrocínio à Mostra, ao Festival do Rio e a outros onze eventos de cinema, teatro e música pelo Brasil afora. Economia, ou criminalização da cultura? As imagens que vejo todo dia na TV, na rua, são cada vez mais distópicas. Miséria, destruição. O Rio está se desmontando, a miséria grassa no Centro do Rio. Onde estava Quasímodo, nisso tudo? Na cinemateca, a salvo, imortalizado na melhor versão do romance de Victor Hugo, O Corcunda de Notre Dame. A de William Dieterle, claro, com Charles Laughton, de 1939.

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