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Paris é uma festa (de cinema)

Luiz Carlos Merten

18 de fevereiro de 2014 | 19h27

PARIS – Havia me programado hoje para ver a grande exposição sobre Cartier Bresson no Beaubourg – que agora devo olhar com outros olhos, depois do episódio de Karim Ainouz em Cathedrals of Culture. Mas o Centro Georges Pompidou fecha às terças e isso me liberou para ver filmes – um monte. Comecei com Elvira Madigan, de Bo Widerberg, passei para Ida, de Pawel Pawlikowski, e encerrei minha noite com um Jacquews Tourneur, Angústias/Experimernt Perilous,. de 1944, no ciclo do Action Christine dedicado a grandes diretores esquecidos. Jacques Tourneur, filho do também cineasta Maurice Tourneur, dispõe de excelente reputação, mas confesso que conhece pouco – o mínimo – de sua obra variada. Algum filme noir (Out of the Past/Fuga ao Passado), algum western (Wichita, com Joel McCrea) e aquela deliciosa fantasia de capa e espada com Burt Lancaster (O Gavião e a Flecha). Angústia, de 1944, é com George Brent e Hedy Lamarr. Ele conhece uma estranha num trem e ela logo aparece morta. Brent procura a família – ela tem um irmão cujo comportamento parece instável. Brent se envolve com a mulher dele, Hedy. Nada é o que parece ser e Tourneur trabalha com a luz para criar efeitos inquietantes e fantásticos, o que era bem uma característica do seu noir. Saí do cinema pensando como é gostoso estar em Paris, redescobrindo filmes que, no Brasil, passam batidos. Da Cinemateca Brasileira aos colegas críticos, ninguém está nem aí para Jacques Tourneur. Jacques quem? Como já disse, Angústia foi meu fim de noite e, como o ciclo terminava hoje, lamentei ter perdido Follow Me Quietly, de 1949, com William Lundigan, que não sei como se chama no Brasil – aqui é L’Assassin sans Visage. O primeiro serial killer de Richard Fleischer, que Stéphane Bourgoin, no folheto distribuído na entrada, define como uma das grandes réussites da série B. A tarde iniciou-se com Elvira Madigan. O romance impossível entre o tenente sueco e a bailarina de circo. Ele larga tudo – família, Exército – para viver sua história de amor, mas logo ambos são perseguidos, hostilizados. Widerberg filma belas paisagens, campos floridos. Os amantes, sem recursos, não têm nem o que comer. O romantismo desmistificado ao som de Mozart e o K22, colado ao filme, passou a ser conhecido pelo nome da heroína, Elvira Madigan. Em 1967, Pia Degermark, uma estreante, foi melhor atriz em Cannes. Seu amante tenente é Tommy Bergren e a intensa alquimia dos dois com certeza ajudou o filme a se tornar o fenômeno internacional em que se converteu. E, no meio de tudo isso, Ida, a noviça que, às vésperas de fazer os votos, deixa o convento para encontrar a tia. Wanda, que já foi a Vermelha, é juíza. Bebe demais, tem amantes ocasionais. Logo entendemos seu mal-estar. Ela é judia, Ida é judia (e vai ser freira católica). A tia a leva numa peregrinação em busca dos pais e Ida é confrontada com sua identidade, descobre como e por que sobreviveu ao Holocausto. Pawlikowski filma em preto e branco, discretamente mas efetivo. Gostei. Agora vou dormir já pensando no que vou ver amanhã. Elio Petri? O outro Widerberg, Adalen? Paris é uma festa de cinema.

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