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Paris! E na fila para rever Le Convoi Sauvage

Luiz Carlos Merten

21 de fevereiro de 2016 | 20h35

PARIS – Não ia colocar a procedência para ver se vocês adivinhavam onde estou. Vale a charada – em qwue outra cidade conseguiria ver, na sequência, Morocco, o clássico de Josef Von Sternberg com Marlene Dietrich e Gary Cooper, e o novo Hong Sang-soo, Un Jour Avec, Un Jour Sans, que se poderia traduzir como Dia Sim, Dia Não? Voltei ao meu queridfo hotel Sorbonne Design, que fica grudado na Sorbonne e substitui o Argonautes, que, durante muito tempo, foi minha casa em Paris. Bastava chegar, sem avisar, que me arranjavam quarto na hora. Uma vez Dib Carneiro foi se hospedar lá. Ficou indignado. ‘Não é do nosso nível.’ O Design é melhor, bem melhor!, mas confesso que tenho saudades do Argonautes. Enfim! Morocco está na Filmothèque do Quartier Latin, om Hong Sang-soo no Reflets Médicis. Confesso que nunca tinha visto Marrocos, primeiro filme de Sternberg nos EUA e sua segunda associação com Marlene, após O Anjo Azul. Ela chega a Mogador com uma malinha que, quando cai, deixa ver umas plumas, para mostrar que é artista, portanto, p… Não importa quantos homens tenha tido. Gary Cooper, o galã, também tinha (e tem) muitas mulheres. Em seu primeiro número Marlene aparece vestida de homem. O teatro é frequentado por legionários, mas Gary, o mais belo entre todos, sente-se atraído pela figura bizarra. Ela inverte o jogo e lhe dá uma flor, que Brown, o legionário, coloca na orelha. Não faço a menor ideia se a história é verdadeira, mas me lembro de haver lido, em alguma parte – A Cidade das Redes? -, que Gary era prostituto, michê, alguma coisa assim. Depois de ver como Sternberg brinca com os papeis sexuais até fico imaginando que sim. O filme conta a história de um triângulo. O riquíssimo Adolphe Menjou deseja Amy Lily/Marlene e ela quase cede, mas, ao descobrir que seu legionário a ama, Marlene larga tudo e vai atrás dele, integrando o grupo de mulheres que perseguem seus homens no deserto. Pelos padrões de hoje, o filme seria ‘machista’. F…-se os padrões. Marrocos dura 90 minutos, queria que durasse oito horas, como o Lav Diaz de Berlim, só para ficar olhando a dupla Marlene/Gary Cooper. Saí do deserto estilizado de Sternberg e caí em Suwon, na Coreia, onde Hong Sang-soo faz mais um daqueles filmes ‘rohmerianos’ de que hoje em dia apenas ele possui o segredo. Aliás, com o perdão de meu amigo Inácio Araújo, o próprio Eric Rohmer havia perdido a fórmula bem antes de morrer. Dia Sim, Dia Não é mais um filme sobre nada, isto é, sobre tudo. Um diretor vai apresentar seus filmes em Suwon, conhece uma artista local. Conversam, bebem, sentem-se atraídos, mas ele não é 100% sincero com ela. Há uma longa cena de bar, filmada em plano fixo – em todo filme de Hong tem uma -, mas essa é tão admirável que deve ter contribuído para que o filme ganhasse o Leopardo de Ouro em Locarno. Prosseguindo no espírito – Paris, capital da cinefilia -, na quarta, 25, estreia O Regresso, de Alejandro González-Iñárritu, com Leonardo Di Caprio, e antes que você diga ‘Mas só agora?’, quero acrescentar que, também na quarta, volta , em cópia nova, Le Convoi Sasuvage, ou Fúria Selvagem/Man in the Wilderness, de Richard C. Sarafian, com Richard Harrids, que conta a mesma história (e é melhor). Surtei quando descobri que vou poder rever, no cinema, um dos grandes filmes de um autor visceral mas subestimado, o Sarafian. e, amanhã, em sessões seguidas, no Champô, passam duas versões de M, O Vampiro de Dusseldorf, a de Joseph Losey, que nunca vi, e a de Fritz Lang, com Peter Lorre. Espero ter deixado vocês babando de inveja, mas sei que é no bom sentido. paris é uma festa de cinema e eu me sinto convidado. Aliás – dia 9 também volta, aqui, em cópia nova, The Party/Um Convidado bem Trapalhão, de Blake Edwards, com Peter Sellers, que é simplesmente minha comédia preferida, mas por essa não vou poder esperar. Tenho de voltar até sexta-feira para encarar o Oscar. Só espero que The Party se eternize em cartaz até a volta de Cannes…