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Parceiros da noite

Luiz Carlos Merten

14 de dezembro de 2013 | 10h22

Saiu no Caderno 2 de ontem minha entrevista com Alain Guiraudie, feita no Rio, quando ele veio para prestigiar a retrospectiva de sua obra no festival de Ilda Santiago. Ela integrava o júri que premiou Um Estranho no Lago na mostra Um Certain Regard, em maio. Não cometo nenhuma indiscrição, porque Ilda contou o caso em nosso encontro do Cinema da Vela, no Cinesesc. Tomas Vinterberg presidia o júri. Sua primeira impressão diante do Estranho foi, justamente, de estranhamento. O macho dinamarquês reagiu de início mal às cenas homo do filme, mas confrontado com seu ‘preconceito’, terminou por admitir a complexidade e beleza da obra de Guiraudie. Acho que a entrevista com ele, dado o espaço, ficou bem, mas Guiraudie disse muita coisa que tive de deixar de fora. Falamos muito sobre os três elementos que compõem a estrutura do filme. Os três personagens (Frank, Michel e Henri), os três espaços (o estacionamento, o lago e o mato), as três cores (o azul do céu refletido no lago, o verde do mato, o amarelo), a variação da luz, à medida que o crepúsculo avança. E a dramaturgia do filme tem o vento, aquele vento que ecoa em meus ouvidos. Guiraudie me contou de um movimento gay que havia na França, nos anos 1970, o Front Homossexual Revolucionario, que reformulou o Manifesto Comunista – ‘Homossexuais do mundo inteiro, acariciai-vos’. Havia uma utopia sexual, hetero, homo, mas hoje, ele avalia que, com a liberação (o casamento gay etc), verifica-se algo interessante – os locais de drague (caçada) são fechados na França e agora é preciso pagar, em clubes privados. O sexo integra-se ao consumismo geral que está na base econômica do mundo em que vivemos. Bye-bye hedonismo. Achei também muito interessante que ele não tenha encontrado o lago com o mato no mesmo lugar. Os espaços eram fundamentais para compor sua fábula gótica – como nos contos de fadas, o inocente (Frank) é atraído pelo desejo que o leva para dentro do mato, onde reside o perigo – mas, no limite, o serial killer que mata gays, satisfeito seu desejo, age também dentro d’água. Guiraudie encontrou o lago, e o mato, mas em diferentes regiões da França. O mais difícil, porem, ele admite que foi encontrar a figuração. Achava que seria fácil atrair centenas ou, pelo menos, dezenas de gays para o que prometia ser uma filmagem liberal, mas pouquíssimos atenderam ao seu chamado e ele terminou tendo de filmar, mesmo entre os figurantes, com atores profissionais. Apesar das diferenças, revendo Azul É a Cor Mais Quente e Um Estranho deu para perceber melhor as similaridades – não só a linguagem do corpo para expressar o desejo, mas o verbo. E o suspense. O de Kechiche é pontual, no fim, a busca do garoto por Adèle.  O de Guiraudie, baseado na repetição – os carros que chegam ao estacionamento, aquele carro sempre parado -, é hitchcockiano, soturno. O vento tem a mesma forças dramática de Blow Up – Depois Daquele Beijo, em que Michelangelo Antonioni também bebeu na fonte de Alfred Hitchcock. O vento no parque, quando David Hemmings começa a fotografar, seguindo o casal e, depois, ao ampliar as fotos, ele descobre que houve um assassinato. Mas o que mais me deixa chapado é a noite, em Guiraudie. A noite no filme, dele é aquilo que acho que William Friedkin queria que fosse em Cruising. Vai ser o titulo do post, que vocês já leram.

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