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Parada! (2)

Luiz Carlos Merten

29 de maio de 2016 | 10h05

Uma pequena contribuição à Parada do Orgulho LGBT. Filmes com e sobre gays, não necessariamente sobre homossexualidade, mas nos quais o tema aparece, e é importante.

Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti
Não, não é só porque quando Simone entra em processo de decadência vai bater à porta de Roger Hanin e, esse, depois, da mesma forma que Simone extorquiu dinheiro dele, vai extorquir de Rocco, que aceita as condições para que o irmão não seja preso. Há uma atração incestuosa entre Rocco e Simone, os personagens de Alain Delon e Renato Salvatori. Ela culmina quando Simone volta para casa, depois de matar Nadia, e os dois irmãos terminam abraçados, e chorando, na cama. Aquilo não é gay. Não é?

Morte em Veneza, de Luchino Visconti
Don Luchino, de novo. Nas vielas de uma Veneza empestada, Aschenbach/Dirk Bogarde caça o andrógino Tadzio/Bjorn Andresen. E morre na praia, contemplando seu (distante) objeto de desejo. Uma paixão platônica. Um ideal de beleza. Só? Então tá…

Teorema, de Píer Paolo Pasolini
Terence Stamp, belo como um Deus, irrompe na vida daquela família. Todos o desejam e ele faz sexo com todo mundo, revelando a verdadeira natureza de cada personagem. O pai, a mãe, o casal de filhos, a doméstica. A família desintegra-se. O filme vai além da questão da homossexualidade e do gênero, mas ela está lá, e é forte.

De Repente, no Último Verão, de Joseph L. Mankiewicz
Revi o filme no outro dia e fiquei pasmo. A homossexualidade como poesia e atividade predatória. Sebastian Venable usa a mãe e a prima como iscas na sua insaciável busca por machos, que termina naquela praia, Cabeza Del Toro. Em outra praia, Sebastian teve a revelação não da misericórdia, mas da crueldade de Deus – os filhotes de tartaruga, mal saem dos ovos, são bicados até a morte e devorados por pássaros. Um em cada mil, ou dez mil, chega ao mar. O paraíso? Sebastian é predador. Em seu jardim, cultiva uma planta carnívora. Tennessee Williams sempre conviveu mal co9m a própria homossexualidade. Suas (grandes) peças são a prova. Num mundo ideal, de aceitação e respeito pela identidade sexual de si mesmo (e do outro), teria sido o dramaturgo que foi? Rosa Von Prauheim – “Não é o homossexual que é perverso, mas a situação em que vive…”

Triângulo Feminino, de Robert Aldrich
O mais truculento dos grandes diretores de Hollywood vingou-se da máquina do cinemão. Impedido de mostrar o beijo entre duas mulheres em Pânico em Singapura, no começo de sua carreira, ele foi ao limite adaptando a peça de Frank Marcus, The Killing of Sister George. No set de uma série de TV, Beryl Reid e Coral Browne disputam a jovem e bela Susannah York. Um pouco a visão de Tennessee Williams e Joseph L. Mankiewicz. A homossexualidade como atividade predatória. Aldrich, agora seu produtor, vai além do beijo. Coral ‘come’ Susannah numa cena quase explícita e Beryl, a irmão George, freira, termina o filme sozinha, mugindo feito vaca, de desespero.

Os Pecados de Todos Nós, de John Huston
O grande Huston construiu, na vida pessoal, a lenda de ser o mais macho dos cineastas. Beberrão, mulherengo,
pugilista, caçador na África etc. Mas suas abordagens da homossexualidade fizeram história e esse talvez seja seu maior filme. É uma adaptação de Carson McCullers, Reflections in a Golden Eye. Começa com uma frase que logo é desmentida – a vida num forte, em tempo de paz, é muito chata. O militar Marlon Brando deseja o soldado que cavalga nu em pelo o garanhão de sua mulher. Mas o soldado quer mesmo é ter sexo com Elizabeth Taylor, a quem espia, de noite. O acaso ajudou. Huston queria fazer o filme com Montgomery CLift, que era gay e morreu. Sua substituição por Brando torna mais visceral o monólogo na sala de aula, quando o oficial, enlouquecido de tesão, provoca mal-estar entre os alunos. Clift era depressivo. Dificilmente teria evitado a autocomiseração. Mas, enfim, nunca se sabe…

O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee
Vamos logo colocando o filme cultuado de Ang Lee. Os pastores Jake Gyllenhaal e Heath Ledger morrem de tesão e terminam cometendo o ato. A vida segue, mas, como dizia Rainer Werner Fassbinder, a ansiedade corroi a alma…
Tempestade sobre Washington, de Otto Preminger
O grande Preminger já abordara a homossexualidade em Exodus – Sal Mineo, sodomizado pelo inimigo, virava terrorista para se vingar. Agora, a enquete do Senado para aprovar um secretário de Estado topa com evidências de que, no passado, ele teve relações com outro homem. Lava-jato gay, chantagem, tragédia. O filme é contemporâneo de Vassalos da Ambição/The Best Man, de Franklin J. Schaffner, baseado na peça (de tema parecido) de Gore Vidal, que adaptou com Mankiewicz a peça de Tennessee Williams. Vassalos bem poderia ser o nono da lista…

Ben-Hur, de William Wyler
O que a história dos tempos de Cristo faz na lista? Gore Vidal, que foi um dos adaptadores, dizia que a rivalidade entre Judá Ben-Hur e Messala era uma história de ‘ass’ malresolvida, mas que nunca se falou disso no set porque Charlton Heston surtaria…
OK. Essa é uma shortlist. Sinta-se livre para acrescentar quantos filmes quiser – Longe do Paraíso? Carol? Meu Passado Me Condena/Victim, de Basil Dearden, com Dirk Bogarde? O filme é importante porque, na Inglaterra, no começo dos anos 1960, desencadeou um debate que enterrou uma lei do tempo da Rainha Vitória que permitia meter na cadeia quem fosse flagrado com pessoa do mesmo sexo. O Criado, de Joseph Losey? Dirk Bogarde, mais uma vez e sempre. Um filme brasileiro? E que tal Praia do Futuro, de Karim Ainouz, em que o heroico Capitão Nascimento…? Com essas interrogações, despeço-=me, por ora.