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Parada! (1)

Luiz Carlos Merten

29 de maio de 2016 | 08h57

Começa daqui a pouco, daqui a algumas horas, a Parada do Orgulho LGBT, que este ano deflagra a bandeira da Lei de Identidade de Gênero, Já! Escrevi aqui no outro dia, no post sobre De Repente, no Último Verão, que, a despeito dos Bolsonaros, tem havido um avanço na questão da identidade e do reconhecimento gays. As coisas mudam, mas eu me pergunto quanto elas mudam. Volta e meia ocorre um surto de agressão e violência e um gay toma porrada. Ou uma garota é estuprada, como esse caso horroroso que ocorreu há dias. Quando isso ocorre, dizemos que são exceções. A dor não é no útero, disse a garota agredida, é na alma. Não resisto a acrescentar o que li em Positif, a revista francesa. Comprei três ou quatro números, os que consegui encontrar em bancas e livrarias de Paris e Cannes. Dossiês sobre Hou Hsiao-hsien, pegando carona no lançamento do maravilhoso A Assassina, Nicholas Ray e Richard Brooks. Quem ainda se lembra do grande Brooks, além de mim? Positif, graças a Deus. Na edição de março, na sua crítica (simpática) a Beira-mar, de Márcio Reolon e Filipe Matzembacher, Bernard Gênin compara os garotos do longa gaúcho à heroína de Abdellatif Kechiche (Adèle Axerchopoulos em Azul) e observa que, recém saídos da infância, eles já fazem resolutamente suas escolhas, sem temer a vida que os espera. E, nesse sentido, Gênin considera o filme corajoso e olhem o que ele escreve – “Afinal, é o Brasil, citado em 2014 como um dos países mais perigosos do mundo para integrantes de comunidades (de) homossexuais.” Não resisto a postar uma lista de filmes com e sobre gays. Dez. Os melhores? Não necessariamente. Os que me vêm à lembrança, sem muita elaboração. São 110 anos de cinema. Nestas onze décadas, grandes artistas homossexuais enfrentaram o preconceito, alguns (muitos?) tombaram. Às vezes, ou será sempre?, não são ‘escolhas’. É algo muito mais forte, visceral. Não tem nada a ver, mas talvez tenha. Arletty virou mito como a Garrance de O Boulevard do Crime/Les Enfants du Paradis, de Marcel Carné. Foi a maior estrela francesa de seu tempo, ídola de gays, com o hieratismo de sua presença e aqueles olhos que um dia a traíram, e ela morreu quase toptalmente cega. Durante a Ocupação, Arletty se apaixonou por um oficial alemão. Viveu uma intensa e louca história de amor. Nunca consegui, nas raras vezes em que entrevistei Alain Resnais – tive esse privilégio, sim -, perguntar se Duras e ele alguma vez pensaram em Arletty a propósito de Hiroshima Mon Amour. Emmannuelle Riva, bêbada de paixão, conta a seu japonês – “Ah que j’ai eté jeune um jour!” Arletty foi caçada pela Resistência após a guerra. Nunca deixou de amar o alemão – que, nos anos 1950, na nova Alemanha, foi ser embaixador na África. Arletty dizia – “Ninguém arranca essa história de mim.” E dizia mais, quando a acusavam de não ser francesa, dormindo com o inimigo.”Oui, je suis française, mais mon cul est international.” A força do desejo, o amor que, finalmente, ousa dizer seu nome. Misturei tudo, mas estava louco para contar essa história de Arletty. Dava filme. De alguma forma, Resnais (e Duras) o fizeram.