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Para sempre, Truffaut

Luiz Carlos Merten

06 de fevereiro de 2017 | 06h02

PARIS – Gostaria que meu amigo Dib Carneiro estivesse aqui, embora duvide que conseguiria arrastá-lo para ver Os Incompreendidos numa sessão ‘jeunesse’, juventude, no domingo pela manhã, no MK2 Hautefeuille, aqui pertinho. Fazia tempo que não revia o clássico de François Truffaut. Cópia nova, restaurada. Surpreendi-me de como a memória é traiçoeira. lem,brava-me perfeitamente dos movimentos de câmera que descortinam Paris – uma certa Paris – na abertura de Les Quatre-Cents Coups. A pedra, o ferro, o humano. Mas sempre achei que era como se a câmera procurasse Antoine Doinel, até chegar a Jean-Pierre Leaud. Não – da ruas, a câmera salta para o garoto que escreve na sala de aula, e ainda não é Doinel que logo em seguida será colocado de castigo pelo professor. Lembrava-me perfeitamente de cenas inteiras na escola, com os pais, na cadeia, mas me havia esquecido completamente da cena do teatro infantil, que agora me pareceu visceral, e por isso gostaria que o Dib a tivesse visto. Meru amigo é o maior crítico de teatro infantil do Brasil – não vou fazer aos outros a ofensa de dizer que é o único. Criou um site de teatro infantil que alimenta do próprio bolso, sem nenhum patrocínio. Pecinha é a vovozinha, tudo junto, pecinhaeavovozinha. Doinel e o amigo que o acolhe em casa vão ao teatro infantil, um espetáculo de marionetes. Chapeuzinho Vermelho, a vovó, o lobo. De forma quase documentária, Truffaut capta com sua câmera as expressões das crianças – medo, alegria, tristeza, espanto, maravilhamento (se é que existe a palavra). A cena termina com um menino que escorrega e se aninha no ombro de outro. Não vi aquilo como nenhum signo de homossexualidade precoce, mas a cena tem a ver, obviamente, com a amizade de Antoine e o colega de classe, que provoca ciúme em outro colega (e esse outro vai delatá-lo aos pais). O amigo vai visitá-lo no reformatório, não pode entrar. Truffaut o segue com a câmera, quando ele vai embora de bicicleta. Por que esse cuidado? O amigo da école buissonière, da vagabundagem, das sessões da tarde roubadas à escola. E, claro, como num contraponto ao início, a corrida final para o mar e ambos movimentos inspiraram Glauber Rocha no começo e no fim de Deus e o Diabo. Os Incompreendidos é dedicado ao amigo, ao pai substituto, o crítico André Bazin, que despertou no jovem Truffaut o amor pelo cinema. Foi o que o salvou da marginalidade, todo mundo sabe. De minha parte, tenho pensado em Bazin, que formulou sua teoria sobre a ontologia do cinema como uma arte realista. Face ao desenvolvimento dos efeitos especiais, como ficam a ontologia, o realismo? O ratinho de Ratatouille é tão visceral quanto Doinel, ou não? Tinha vontade de escrever um livro sobre isso, mas o jornal, o blog… Fiquei dispersivo com a idade. Prefiro essas observações ligeiras, porque me parecem mais de acordo com o air du temps. São quase 9 da manhã em Paris, 6 ai no Brasil. A janela do meu quarto, na Rue Victor Cousins, abre-se para a Sorbonne. Está havendo alguma prova, porque há uma hora vejo pessoas debruçadas sobre as mesas, escrevendo sem parar. paris é uma festa? Só se for do saber. Mas o país está numa crise medonha, seria tema para outro post que talvez venha a escrever.

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