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Para refletir sobre o estado do mundo

Luiz Carlos Merten

29 de abril de 2019 | 23h50

Maria Fernanda Rodrigues me cantou ontem os números do sucesso planetário de Vingadores – Ultimato em seu primeiro fim de semana. US$ 1,2 bilhão. Nada mau para um filme ruim, aliás, péssimo, como cravou, querendo causar, o coleguinha da concorrência. Queria ter visto A Golondrina, no Teatro Nair Bello, no domingo. Não deu. Saí do jornal debaixo d’água, passei em casa para pegar um abrigo, e quem disse que consegui táxi? Terminei jantando cedíssimo – no Gígio -, às 9 estava de volta. Vi um pouco de TV, esperei pelo Game of Thrones, que nunca vejo. Fiquei esperando uns 20 minutos por uma tal batalha que não veio. Desisti. Admito que vi descontextualizado, mas puta troço chato, pretensioso. Fui ler a Carta, O Levante da Cultura, texto de Jotabê Medeiros e Pedro Alexandre Sanches. Ivana Bentes cai matando no José Padilha, ‘que ganha na alta e na baixa do fascismo. Depois a gente se arrepende e também lucra com o arrependimento.’ Padilha também tomou porrada do Sérgio Augusto, no fim de semana, no C2. ‘Padilha poderia ser a nossa (nossa não, do bolsonarismo) Leni Riefenstahl’, pegando carona na confusão mental do presidente e de seus assessores, quando conceituam sobre o nazismo. Estou reproduzindo essas críticas de gaiato, porque Padilha saiu do meu radar há anos. Quando soube, pelo Marcos Prado, que ele ia fazer O Mecanismo, ainda sugeri, idiota que sou, que lesse o livro do Paulo Moreira Leite sobre a Lava-Jato, sobre como uma operação necessária de combate à corrupção virou uma ameaça à democracia no Brasil. Que País é esse? Tanta coisa em que eu acreditava ruiu no último ano. O que ocorreu com as pessoas? Só o que falta agora é me acusarem de racismo, mas, no sábado, fui ao Cinesesc, com Orlando Margarido e Emília Santiago, para ver a versão restaurada de Ran. Ficamos separados. Sentaram-se, na minha frente, duas mulheres negras. Provavelmente, não se sentiram representadas – por Shakespeare, nem por Akira Kurosawa. Passaram a sessão cochichando, e rindo, e bufando. Eu me lembrando do meu texto sobre Gabriel Villela e o cinema, no livro organizado por Dib Carneiro e Roberto Audi. A japonesice na cultura barroca mineira. Lembro-me de haver iniciado meu texto citando os deslocamentos de Lady Kaede, a Lady Macbeth de Kurosawa. Como uma gueixa, ela se move com graça e seus deslocamentos são sempre antecipados pelo ruído da seda do quimono arrastando no chão. Eu queria usufruir aqueles momentos, que Gabriel reproduziu no palco, ao fazer de Cláudio Fontana sua Lady Macbeth, mas não conseguia. Me deu uma dor. Os hunos voltaram. Felizmente, no domingo pela manhã, tive uma sessão exclusiva de Amanda para mim, na Reserva. Fui ver o filme para poder entrevistar o diretor Mikahël Hers. Amei – o filme e o cineasta. Nesta segunda, voltei à Reserva para rever Varda par Agnès. Pergunto-me se aquelas duas espectadoras se sentiriam representadas pelo feminismo branco de Agnès? Em caso contrário, teriam o mesmo comportamento predatório? Está tudo tão difícil. Só espero que passe, e eu ainda possa rever/desfrutar na avenida o meu Brasil, que não é com Z.

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