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Para quem telefona Asgren? (O mistério final do ano que já foi)

Luiz Carlos Merten

01 de janeiro de 2019 | 10h40

Sugiro que só leia o texto sobre meus dez + do ano quem já tiver visto os filmes. Vai ter spoiler, com certeza. Foi um ano duro, difícil. Para mim? Para o mundo. A garota magnetiza os homens e dança, silhuetada pelo sol que se põe – o diretor Lee Chang-dong cronometa os movimentos de Jeon Jong-seon com a descida do astro -, em Em Chamas. Jean-Claude Bernardet, no seu momento Norma Desmond, emula a dança de Kazuo Ohno em Antes do Fim, de Cristiano Burlan. Este homem, que não quer vegetar na doença, convoca a amiga Helena Ignez para um suicídio conjunto, mas, no final, diante do abismo, vergado pelo vento, a vida vem e Jean-Claude dança. Não uma dança frenética, mas os movimentos harmoniosos e controlados do butô, impregnados de drama.
Em Roma, de Alfonso Cuarón, a babá, Cléo, lança-se mar adentro para salvar as crianças e depois desaba, emocionalmente. “No lo quería, no lo quería”, ela repete, referindo-se ao filho natimorto e a patroa, agradecida, a abraça repetindo outro mantra. “Te queremos mucho, te queremos mucho.’ E em Asako I e II, de Ryusuke Hamaguchi, a garota que viveu (e perdeu) dois amores chama pelo gato como se dependesse disso, de reencontrá-lo, o significado da própria existência. Hamaguchi não deixa de ser um discípulo de Eric Rohmer, o homem dos provérbios. Quem tem duas casas perde a razão, Les Nuits de la Pleine Lune. Quem quer ter dois amores, também. E, em Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans, o lamento roseano da classe trabalhadora do Brasil, o solitário Cristiano/Aristides de Souza reflete, com pungente simplicidade e honestidade, sobre a própria desconstrução emocional, sentimental e de classe.
Foi um ano mais que duro, tão sem-vergonha, que o ainda presidente – deixará de sê-lo antes que eu termine o texto – Michel Temer sugeriu que os trabalhadores teriam de escolher entre direitos e empregos. Nem uns nem outros, já que o sistema econômico vigente visa à concentração da riqueza e não está nem aí para as massas, nesse Brasil cujos indicadores apontam para o aumento da pobreza. (Vai continuar aumentando. Numa conversa com empresários, relatou CartaCapItal, o eleito, e a essa altura já empossado, Jair Bolsonaro reconheceu quanto era horrível a vida deles, os ricos empregadores. E a dos pobres, então?) Por mais duro e difícil que tenha sido o ano, o cinema nos salvou – me salvou. Não apenas esses fragmentos de (grandes) filmes. O cinema me permitiu sonhar – a revolta do mar no deslumbrante Aquaman, de James Wan -, mas também refletir – sobre o que sou, o que somos. Helena Ignez, a grande personalidade cinematográfica de 2018 – atriz em Antes do Fim; autora/diretora em A Moça do Calendário -, atravessa o abandono da cidade (o Centro de São Paulo deve ser campeão mundial de sujeira das metrópoles. Para quando a peste, a epidemia dos ratos?) para afirmar a resistência artística e cultural. A desobediência (Sebastián Lelio)? Cada vez mais, face ao preconceito e à violência, à violência do preconceito, nós que resistimos e desobedecemos temos de criar nossos ‘paraísos perdidos’ (Monique Gardenberg). Face ao horror que se desenha, nessa outra violência – contra o meio ambiente – , os super-heróis (anônimos) são os índios de Kiripkura, de Mariana Oliva, Renata Terra e Bruno Jorge, que fazem da sua fragilidade a sua força.
Os maiores filmes de 2018 foram narrativos e experimentais, buscando novas formas para contar as histórias. Não existe arte sem invenção. A sombra de Tiradentes, da Aurora, projeta-se sobre todos esses filmes e autores – e muitos nem sabem da existência do evento mineiro. A extraterritorialidade. Os corpos adiante. Pensar o mundo e o cinema como atos de desobediência e resistência. No dinamarquês Culpa, de Gustav Möller, a ação concentra-se na sala em que o policial, ao telefone e vasculhando a tela do computador, tenta localizar o carro do marido que sequestrou a mulher. O espaço e o tempo se expandem nas vozes distantes que vão desconstruindo as aparências. No final, o carrasco é a vítima e o policial, tocado pela experiência – ‘Nosso objetivo é salvar vidas’, não aqui, não as de pretos, pobres, estatisticamente suspeitos desde antes do nascimento nesse Brasil cujo sonho é ser lacaio da ‘América’ -, desaba emocionalmente, e assume a própria culpa. Asgren, o excepcional Jacob Cedergren, termina o filme trôpego, como se estivesse bêbado. Saca o celular e faz uma ligação. Para quem? Só podemos imaginar. O cinema é uma coisa maravilhosa. Pode estar começando outro filme, nesse derradeiro suspiro de Culpa, mas esse, quem tem de fazer, somos nós, o público. Como eu, nesse 2019 que já chegou. Com esperança, por que não?, com afeto. Rick e Ilsa sempre terão Paris, no clássico romântico Casablanca, de Michael Curtiz. Nós, no blog, sempre teremos os filmes.