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Para que serve a arte?

Luiz Carlos Merten

16 Julho 2015 | 09h28

Gosto bastante de François Ozon. Acho-o inteligente, provocativo, mas o que me encanta é que ele faz umas provocações serenas, que não nascem de um desejo de épater. Em Cannes, no ano de Azul É a Cor Mais Quente, Jovem e Bela provocou um escândalo com sua história de uma garota que quer ser p… Participei de uma mesa com jornalistas – e depois falei de novo com Ozon pelo telefone – e havia uma gringa enlouquecida, que o tratava de porco chauvinista. Ela achava o olhar do diretor sobre a mulher incorreto, fetichista e sustentava que a mulher só se prostitui por necessidade, e isso nos remete a Catherine Deneuve como Belle de Jour. Não é exatamente a necessidade material, mas outro tipo de necessidade que leva Sévérine ao bordel de Madame Anais. Polemizei na mesa porque acho que, se a gente levar ao pé da letra o conceito da correção política, um bom número de personagens dos 100 + (da literatura, da dramaturgia) terão de ser abolidos. Dito isso, estou tendo a maior dificuldade para deglutir o novo Ozon, sobre uma mulher que faz uma descoberta sobre o viúvo de sua melhor amiga e ela, a tal descoberta, terá reflexos subversivos/transformadores em sua vida (e casamento). Pedro Almodóvar – a propósito, onde anda? – já fez filmes sobre as novas concepções de família, e um bom exemplo é o belo Tudo Sobre Minha Mãe, do qual gostei bastante, mas não estou seguro de ter gostado tanto de Uma Nova Amiga, por mais perturbação que o filme me possa ter causado. Perturbação – é a palavra. Reli outro dia um livro de Agatha Christie – dois: Um Punhado de Centeio e Um Passe de Mágica – e confesso que chorei pela forma como aquela mulher, convencida como era de que a maldade é intrínseca ao ser humano, conseguia ser tão amorosa e até tolerante com as falhas das pessoas, acreditando na possibilidade de recomeços (no plural). Recomeços, sim, mas tanto Miss Marple quanto Hércules Poirot, acreditam sempre que o mal deve ser punido e que, como faz Fernanda Montenegro no admirável plano final de Eles não Usam Black Tie, de Leon Hirszman, o feijão ruim deve ser catado e descartado justamente para que a feijoada fique boa. Por que escrevo isso? Porque ultimamente tenho me perguntado sobre a função da arte. Van Gogh dizia que ela tinha de consolar, mas o conceito não se aplica a filmes e espetáculos que tenho visto. Fui ver A Corrente do Mal e saí dizendo para Paula Ferraz, da distribuidora Califórnia, que o filme é muito desagradável. Aí surgiu a discussão – mas se é desagradável, é bom. Um filme sobre uma maldição que é transmitida pelo sexo, as pessoas são perseguidas por seus fantasmas e têm mortes horríveis. Como se quebra a corrente? Fui ver ontem Contrações, a peça de Mike Bartlett na montagem com Débora Falabella e Yara de Novaes que já está rodando há uns dois anos (ou mais). A lista de prêmios é impressionante. Todos!  Débora faz a funcionária chamado à sala da gerente da firma, que começa a escrutinar sua vida e a interferir no privado, sob a justificativa de que repercute no público – o rendimento profissional dela. Essa interferência leva a uma destruição brutal e sistemática da personagem de Débora. Achei as atrizes ótimas – alguma dúvida, sendo Débora e Yara? -, mas a montagem me causou o mesmo mal-estar que tive vendo A Corrente do Mal, e me pergunto se é isso que quero no cinema, no teatro, na literatura? Por momentos, parecia teatro do absurdo – a frieza da gerente e a desmontagem da funcionária, reduzida a uma situação de impotência que se confunde com inércia. Eu, ali, morrendo de mal-estar e tinha gente que morria de rir. Podem até me dizer que era de nervoso, mas não sei se, ao sair do teatro, quem riu vai dizer se é angustiante, ou engraçado. Sobre métodos (nazistas) de recrutamento e seleção de RH, Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval fizeram o filme definitivo, A Questão Humana, que, por sinal, integra a retrospectiva A França dos Excluídos, dedicada à dupla e que começa hoje no Cinesesc. Klotz e Perceval estarão/estão aqui e, no sábado pela manhã, ministram uma master class. Nenhum filme é mais contundente que A Questão Humana, mas ele não me produziu incômodo nem mal-estar. E muito menos produziu risadas na sessão em que o vi, na Mostra. O sentimento foi outro. De indignação, uma vontade de reagir. Reações variam. Nem sempre reajo assim. Mas cá fico me perguntando – para que serve a arte?