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Para o Rubens, num chão de estrelas

Luiz Carlos Merten

19 de junho de 2019 | 21h26

Não tenho conseguido postar regularmente, minha prioridade tem sido o jornal. Matérias para o impresso, para o online. Entrevistas, cabines – hoje fui ver A Turma da Mônica – Laços na Paris Filmes. Gostei daquela atmosfera bucólica de cidade pequena, de vida familiar, de classe média. E agora estou aqui, encarando o blog, o que vou escrever, como vou escrever. Creio que nunca mencionei, mas fiz a cirurgia no Hospital Samaritano, o mesmo em que Rubens Ewald Filho foi internado, após sua queda na escada rolante do shopping. Chegamos a compartilhar a CTI, porque, após a segunda cirurgia, como paciente de risco – fiz revascularização -, não podia voltar imediatamente para o quarto. E Tuna Dwek passava todo dia para visitar, e dar notícias. Tuna conheceu a Doris, a Lúcia, o Carlos. Quando vim para casa, ela foi filmar em Florianópolis. E, neste final de tarde, a Tuna me ligou de lá, aos prantos, para dizer que Rubinho havia morrido. Estava inconsciente, mas morreu após o banho, perfumado para sua última viagem, como me disse, com sua alma de artista, a Tuna. REF foi, e será sempre, uma referência para a crítica de cinema no Brasil. Rubinho não rezava pela cartilha da academia, era muito espontâneo, muito autêntico em seus gostos, e opiniões. Lia seus guias de vídeo em Porto Alegre, tenho seu Dicionário de Cineastas, que está em frangalhos, de tanto que pesquiso nele para os filmes na TV. Tenho até, no jornal, um velho volume dele, sugestivamente chamado de Os Filmes de Hoje na TV. Outro dia cheguei a pensar em encadernar os dois, Os Filmes de hoje e o Dicionário, antes que se desfaçam. Só eu, nessa altura da vida, para pensarem encadernação. Rubinho foi ator, autor (de TV), diretor (de teatro). Ficou identificado como o homem do Oscar e, por décadas, foi comentarista, na Globo, da premiação da Academia de Hollywood. Tinha aquela memória prodigiosa, e a vida toda gabava-se de haver anotado, desde a tenra idade, os filmes que via. Contabilizava mais de 37 mil. Sabia mais do que qualquer outra pessoa que conheço sobre os anos dourados da indústria do cinemão, tudo sobre astros, estrelas e (grandes) diretores. Adorava musicais, westerns, tinha fama de americanófilo (em termos de cinema), mas bastava sentar com ele numa mesa de restaurante, como fizemos tantas vezes em Cannes, para que ele soltasse o verbo para revelar seu amor pelos italianos. Era louco pela grande comédia italiana, e imagino que isso tenha facilitado seu elo com Sílvio de Abreu, mas amava também Luchino Visconti e quem quer que tenha Visconti em seu panteão vira meu bróder. Fomos colegas na redação do Estado, quando ele escrevia no Jornal da Tarde, mas foi uma coisa breve. Foram tantos encontros em Gramado, primeiro como colegas jornalistas, depois já com ele como curador. Algumas de minhas melhores conversas com Rubinho foram compartilhadas com Elaine Guerini. Certa noite, ele abriu-se com a gente, falando de amores, família, nada que eu esteja autorizado, ou queira revelar. Todos temos direito a nossos segredos. Sei que é de praxe, na morte, tentarmos nos despedir das pessoas resgatando suas qualidades. Defeitos, quem não os tem? Rubinho tinha um ano mais que eu, talvez menos. Morreu com 74 anos, e daqui a três, quatro meses, em setembro, essa será minha idade. Queria escrever uma daquelas coisas bonitas, que ele foi numa poeira de estrelas, sei lá, mas não consigo imaginar nada mais simples nem direto que a fala da Tuna, aos prantos, me dizendo que ele partiu perfumado. Vai em paz, amigo.

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