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Para o meu amigo Pereira

Luiz Carlos Merten

03 Setembro 2013 | 23h55

Pereira me pede que fale sobre alguns filmes lançados em DVD – Nashville, Inverno de Sangue em Veneza e qual era mesmo o terceiro? Segunda – ontem – no Rio, almocei com, meu amigo Dib no Fashion Mall e havia uma Livraria Cultura. Nashville é uma exclusividade Cultura, foi esse o lançamento que o Pereira citou? Não importa. Nashville é o meu Robert Altman. É um filme de 1975, e Altman, consagrado pela Palma de Ouro que recebeu por Mash, em 1970, havia emendado uma boa meia-dúzia de filmes, incluindo algunsa de que gosto muito, como Onde os Homens São Homens, Imagens e Um Perigoso Adeus, mas meu preferido é Nashville. Certa vez falei com  Altman e disse que ele seguira uma lição de Luís Buñuel em O Discreto Charme, soltando a câmera entre diversos personagens, e Altman não gostou nem um pouco. Devia achar que era invenção dele. Nashville possui 24 personagens – 24! -, todos reunidos no mesmo espaço, e no mesmo fim de semana. São astros de country music, de folk, de gospel, aspirantes a cantores, managers, fãs e hás essa misteriosa van que percorre a cidade, conduzindo um político que nunca vemos. Há uma conspiração política que contribui para o clima, mas se o Pereira me pedir que cite uma cena – ‘a’ cena – de Nashville, será aquela em que Keith Carradine canta I’m Easy – que compôs – e todas aquelas mulheres (Lily Tomlin, Cristina Raines, Shelley Duvall e Geraldine Chaplin) pensam, cada uma, que ele está cantando para ela. É coisa de gênio, um dos grandes momentos do cinema. Não sei se o Pereira sabe, mas Inverno de Sangue entrou para o índex das obras proibidas pelo regime militar, com certeza por causa da cena de sexo entre Donald Sutherland e Julie Christie. Nunca houve uma cena como aquela. Eles trepam e o diretor Nicolas Roeg faz uma montagem, em flashforward. mostrando, simultaneamente, como se arrumam para sair. Inverno de Sangue é sobre um casal que perde a filha – a menina morre afogada – e eles vão para Veneza, onde a mulher faz amizade com duas velhas sensitivas, que lhe transmitem mensagens da garota morta. Aparece o tempo todo, ou assim parece, uma garota que usa uma capa vermelha, mas que não conseguimos identificar. No desfecho, há uma perseguição à menina pelas vielas de Veneza e Sutherland faz uma descoberta que não é só impactante. É, até onde me lembro, uma das cenas mais assustadoras que já vi. Nicolas Roeg! Diretor de fotografia – dos filmes mais belos da série de Roger Corman inspirada em Edgar Allan Poe -, ele fez filmes sobre o tema da iniciação, e o enigma é mesmo o que Sutherland e Julie buscam em Veneza. Em Veneza! Quantos casais você já ouviu que foram se purgar da morte dos filhos em Veneza? Ao mesmo tempo que é chique, é cruel. Don’t Look Now, não olhe agora. O próprio título aponta para a ambiguidade, e é curioso como Roeg aborda o tema das religião em choque com forças irracionais – e os milicos devem ter percebido isso. Foi o real motivo pelo qual proibiram o filme. Preciso rever Inverno de Sangue, porque, ao contrário de Nashville, nunca soube se gosto do filme. Está aí, agora, uma boa oportunidade para tirar a teima.