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Para não dizer que ignorei a morte de Mauro Dias; seria horrível

Luiz Carlos Merten

02 de fevereiro de 2016 | 01h37

Trabalhei com Mauro Dias por um bom tempo na redação do Estado, mas não posso dizer que fôssemos amigos. Amigo, ele era do Luiz Zanin, sempre juntos, conversando. Mas ele também não me enervava, como fazia com Jotabê Medeiros. Zanin foi terceirizado pelo jornal – é assim que se diz? – mas segue com a gente, Jotabê foi demitido e o Mauro morreu ontem de madrugada, aos 66 anos, de um câncer que, até onde sei, foi devastador, e quando é que um câncer é ameno? Nunca fomos amigos, acho que nunca li um texto dele. Éramos opostos. Eu, o que chamam de workaholic, se não faço dez textos por dia, entre jornal e blog, considero o dia perdido. Não me acho explorado nem que trabalho demais. É meu ritmo, um operário do texto, mesmo com eventuais lampejos de brilho intelectual. Gosto desse corpo a corpo diário, acho estimulante. Se eu tiver de pensar dois dias numa matéria, num texto, acho que paraliso. Até brinco – em geral não tenho tempo de pensar no que vou escrever porque já estou escrevendo. Enquanto eu mourejava – o que é de gosto regala a vida, dizia minha mãe -, Mauro demorava não sei quantos dias para produzir uma matéria. Evaldo Mocarzel, amigo de Mauro desde o Rio, era quem editava o Caderno 2 naquela época. Não ligava para o meu aparente excesso nem para a aparente escassez do meu colega. Dizia que era uma questão de ritmo, cada um tinha o seu, e ele respeitava. Mas sempre admirei muito uma coisa no Mauro – a fidelidade de suas fontes. Chico ligava para ele na redação e, às vezes, automaticamente, a ligação caía em outros ramais. “Mauro Dias está? Quero falar com ele.” Quem é? “Chico.” Chico quem? “Buarque!” Parecia piada. E se o Evaldo pedia uma matéria, não importa com quem, na música, você podia ficar certo de que o Mauro saía a campo e ia conseguir. Ele se uniu a Patricia Vilhalba, tiveram uma filha, a Nara, que foi viver com a mãe, no Rio. A vida numa redação de jornal é muito louca. À força de tanto fuçar na vida dos outros, a gente desenvolve uma proximidade meio promíscua. Não existem segredos. Todo mundo sabe tudo, de todo mundo. A gente convive intensamente e, um belo dia, um vai embora, mesmo a amizade mais forte esfria com a distância. Quem era unha e carne se reencontra formalmente, anos depois. Meu amigo Dib Carneiro me disse que Luiz Zanin e Jotabê Medeiros escreveram textos lindos sobre Mauro Dias. O próprio Dib escreveu um texto catártico – foi o cara que demitiu Mauro Dias do Caderno 2 – que deve ter postado no Facebook. Li, e foi o que me motivou a escrever. Estava em dúvida, eu, se deveria ir ao enterro. Poderia parecer invasivo, quem sabe até uma curiosidade mórbida, já que não era íntimo do falecido. Mas sempre penso, sim, que devo ir. Quem sabe faço isso já pensando no meu. Estamo-nos indo, os velhos. Talvez se possa ver nisso alguma metáfora sobre o velho jornalismo, o impresso. Metáforas à parte, gostaria que me lembrassem com o carinho com que os amigos estão se despedindo do Mauro.