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Para lembrar velhas histórias de listas negras

Luiz Carlos Merten

19 Dezembro 2016 | 11h02

Fui procurar em qual revista, exatamente, encontrei um grande artigo sobre O Preço de Uma Vida. Terminei encontrando outras coisas. Volta e meia faço aqui referência a Cineaste, ‘America’s leading magazine on art and politics of the cinema’. Na Cineaste Volume XLI, N.º 4, Fall of 2016, encontrei o lançamento de livro que me passara despercebido. Hollywood Riots, de Doug Dibbern, editado em Londres (pela J.B. Tauris). Violent crowds and Progressive politics in American film. O livro disseca um breve mas importante ciclo de filmes por volta de 1950/51, em plena era do macarthismo. São obras que abordam o jornalismo marrom e a manipulação da opinião pública pela imprensa sensacionalista, à frente o clássico A Montanha dos Sete Abutres, de Billy Wilder, com o agora centenário Kirk Douglas. Outros filmes e autores analisados – Joseph Losey, por Lawless/O Fugitivo de Santa Maria; Cy Endfield, por Justiça Injusta; e Russell Rouse, por O Poço da Angústia. Achei muito interessante, até porque o tema liberdade de imprensa é dos mais controversos. Todo mundo é a favor – quem não? -, mas a tal isenção, na maioria das vezes, mascara o comprometimento ou o interesse político de empresários, como temos visto no Brasil, em anos recentes. Mexendo daqui e dali encontrei a biografia de Dalton Trumbo – Blacklisted Hollywood Radical – pelo filho dele, Christopher, e Larry Ceplair. Resolvi procurar no índice por Edward Dmytryk, encontrei as páginas e fui checar. De novo encontrei coisas bem interessantes, das quais nem me lembrava. Por volta de 1960, Trumbo estava na lista negra quando foi reabilitado por Kirk Douglas e Otto Preminger, que peitaram a indústria e o contrataram para escrever Spartacus e Exodus. Sempre soube que havia dois projetos sobre Spartacus em Hollywood, naquela época. O de Douglas, adaptado do livro de Howard Fast, e o de Yul Brynner, que seria dirigido por Martin Ritt e baseado em Arthur Koestler, Os Gladiadores. Todos comunistas de carteirinha. Fast havia sido denunciado ao Comitê de Atividades Antiamericanas. Condenado, foi preso, com Edward Dmytryk e Albert Maltz, na penitenciária federal de Mill Point, West Virginia. E foi lá, em 1950, que teve a ideia de escrever o romance sobre o escravo que liderou a revolta contra a Roma imperial. Não sabia dos detalhes da disputa entre as empresas de Kirk Douglas e Yul Brynner – que ganhara o Oscar por O Rei e Eu e sonhava com o papel de Espártaco. O mais curioso é que Brynner desistiu quando Douglas chegou primeiro no mesmo trio de atores que ele queria – Laurence Olivier, Charles Laughton e Peter Ustinov. Acreditam? Como teria sido o Spartacus de Martin Ritt? E, se ele tivesse feito o filme, sua carreira teria tido outra evolução? Não teríamos tido Hud o Indomado, O Espião Que Veio do Frio, Hombre e, especialmente, Ver-Te-Ei no Inferno? Ou justamente o terrorismo de The The Molly Maguires seria a consequência natural da evolução da revolta de Spartacus? Tergiverso, sei, mas fico pensando no que ocorreu naquela prisão da Virginia para que Dmytryk, na sequência, aceitasse colaborar com o macarthismo?