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Para cinéfilos, um (‘o’) paraíso na Terra

Luiz Carlos Merten

01 de junho de 2017 | 14h09

PARIS – Fizemos um passeio de bateau-mouche, Dib e eu, e depois, indo para o cinema, topamos com Carlos Heli de Almeida no Boulevard Saint Michel. Gosto muito desses acasos. Carlos Heli vai tentar ver A Regra do Jogo, o espetáculo de Christiane Jatahy na Comédie Française. Dib e eu já estamos apontados para esta noite. Deve ser minha centésima vez em Paris. Exagero – mas a metade disso, com certeza. Desde que comecei a vir a Cannes em 1992 – e já se vão 25 anos -, tenho vindo duas ou três vezes por ano, todos os anos. Dib tirou uma foto minha na Filmothèque e colocou no Face dele. Meu templo em Paris. Ontem assistimos a Fortunata, na programação de Un Certain Regard, no Reflets Médicis, e emendei sozinho com La Fille a la Valise, de Valerio Zurlini, na Filmo. Hoje, voltamos para ver Le Plaisir, outro Max Ophuls com Danielle Darrieux, que integra o ciclo em homenagem ao centenário da atriz. 100e Anniversaire de Danielle, 1.º de maio de 1917. Cannes Classics já havia comemorado a data com a exibição de Madame De…, de Ophuls. Os brincos de Madame De…, ou como a mulher frívola que Danielle (a personagem) foi selou o destino da mulher em que se transformou. Nada mais digno de Max Ophuls. Em Lisboa, antes de embarcar para Nice, assisti a dois filmes de Kenji Mizoguchi, O’Haru e A Rua da Vergonha, e é impressionante como se podem estabelecer pontes entre esses perfis de mulheres pelos grandes diretores nos anos 1940 e 50. Le Plaisir baseia-se em contos de Guy de Maupassant, e o autor intervém. Sua voz, ao menos – quem recita o texto é Jean Servais. Jesus! A voz de Jean Servais! Tenho quase certeza de que ele forneceu a voz para algum curta de Alain Resnais sobre pintores, talvez o Gauguin. Três histórias, e a intermediária diz respeito a uma maison close e a suas pensionistas. Nesse dia, os clientes que chegam encontram as casa fechada. Foram todas à campagne, para a primeira comunhão da filha de um parente de Madame. Os travellings de Max Ophuls, cineasta do movimento. O rendilhado das imagens, com aqueles cenários construídos, de estúdio, cheio de objetos, pelos quais passeia a câmera. Não é só a voz de Servais, a de Danielle, também. Em todos os seus filmes da época – quase todos -, ela canta. Seduz Jean Gabin. Dois mitos da França. Bebem, e de manhã ela se recompõe, após o que deve ter sido uma noite de prazer. Maupassant/Servais, com austeridade, fala dessa mistura de prazer e pudor. Disse que estava esperando o Dib para vermos Hair e Sandra/Vagas Estrelas da Ursa. Amanhã, vamos fazer uma excursão de dias inteiro, aos castelos do val de la Loire. Sempre quis ir, e ao mesmo tempo fico lamentando os filmes que vou perder. E ainda tem a exposição do centenário de Rodin e a Catherine Frot em Flor de Cactus. E o Ciclo Otto Preminger no Deseperado – Bunny Lake Desapareceu! E o ciclo Deneuve, também no Desperado – pode até ser uma merda, mas sempre quis rever O Vício e a Virtude, que talvez tenha sido o primeiro filme proibido até 18 anos a que assisti. Roger Vadim, o Marquês de Sade. Na França ocupada, a história das irmãs Juliette e Justine. Robert Hossein como oficial nazista, Annie Girardot como a amante (Juliette) e a jovem Deneuve como Justine (e os infortúnios da virtude). Bem antes de Roman Polanski (Repulsa ao Sexo) e Luis Buñuel (A Bela da Tarde), tenho para mim que Vadim foi quem esculpiu o mito do anjo perverso e da loira fria para Catherine. Para cinéfilos, Paris é o que mais se aproxima de um paraíso na Terra.