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Para Camila, com carinho (o texto que não gostaria de ter escrito)

Luiz Carlos Merten

19 de outubro de 2019 | 11h56

Eu adorava a mineirice de Camila Molina. Aquela timidez, aquele recato. Sempre pensei na Camila como uma personagem de David Neves, em Memória de Helena. Ou, então, Helena Solberg, Vida de Menina. E eu, velho sátiro, a provocava o tempo todo. Camila era muito centrada, muito focada no trabalho. Firmou seu nome rapidamente na crítica de artes visuais. Às vezes angustiava-se, porque dizia que não ia dar conta – das pautas que ela própria propunha. Dava, sempre. Eu, veterano, ela novinha. Uma redação de jornal tem, com todo respeito, um ambiente promíscuo. Todo mundo sabe de todo mundo, dizem-se coisas muito íntimas. Eu a incentivava a se jogar mais na vida. Talvez, em alguns momentos, tenha sido até rude. Mas sempre tive por ela um sentimento paternal. Camila tinha a idade da Lúcia, pouco mais, 38 anos. Estou colocando tudo no passado. Era, tinha. Camila morreu ontem num hospital aqui em São Paulo. Foi tudo rápido, o desfecho. Até onde sabia, estava no interior de Minas, com a família. Mas não – estava aqui. Teria gostado de vê-la, ser solidário, dar-lhe um pouco de carinho. Mas a Camila, no meu imaginário, estava longe, embora sempre presente. A todos, na redação, vivendo fora das redes sociais, eu perguntava, volta e meia – notícias da Camila? Esse País virou uma coisa tão horrorosa, com todos esses Bolsonaros, Moros, Dallagnois. As falsas pessoas de bem. A gente nem precisa de tantos vilões, porque a vida, ela própria, pode ser vilã. Ninguém merece morrer aos 38 anos. Hoje, não sei, penso que quando eu queria devassar a intimidade da Camila – vai, faz! -, não pode ser, mas será que tinha a intuição de que ela morreria tão cedo? Sempre houve de minha parte uma urgência em relação a ela. A urgência, bem entendido, era minha. Camila sempre teve o ritmo dela. E impunha limites. Com ela, mineirinha braba, só se podia brincar até certo ponto. Espero que esse texto não pareça desrespeitoso para ninguém, e muito menos para sua irmã, querida Carmem, um abraço. Tanta gente morre jovem nesse Brasil. Negros, pobres, crianças nas favelas, nas periferias vivem (e morrem) nas linhas de tiro da polícia, da criminalidade, sem outra culpa que a de estar ali, na hora errada. É injusto, muito injusto, mas nesses casos pode-se acusar a estrutura social, bradar contra o sistema, levantar o punho para o céu, em protesto. Mas quando a vida, a doença, atinge a gente e leva nossos entes queridos? Camila escrevia sobre artes visuais, mas sabia de tudo. Música, literatura, cinema. Foi ao México fazer uma pesquisa sobre Frida Khalo e escreveu coisas lindas sobre a grande libertária aquela menina de Guaxupé, no fundo das Gerais. Ela tinha um olhar acurado, generoso. Acreditem – na dor, a gente tem tendência a minimizar os defeitos e se concentrar nas virtudes. Mas, como amigo, como colega, nunca vi da Camila outra face que não a da pequeninha que crescia no embate, sabia se impor – sem perder a delicadeza e a ternura, jamás. E era leal, palavra, ou sentimento, que significa muito para mim. Camila se foi, ontem, sem que a gente tivesse se despedido. Mas ela sabe, sempre soube, que a amávamos. João Luiz Sampaio tem razão. Certos posts a gente não deveria nunca ter de escrever.