As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Para Angel, no céu dos cachorros (que deve haver)

Luiz Carlos Merten

08 de fevereiro de 2020 | 09h47

Estou iniciando um post que não sei aonde vai me levar, nem se vou validar, mas me parece necessário. Por mim, para mim. Quem me acompanha sabe dos meus percalços nos últimos anos. Meus problemas de saúde são notórios. Aliás, nem sei se posso dizer que foram problemas de saúde. Tive de fazer uma prótese de joelho e foi o início de um processo que me levou a uma segunda cirurgia, tudo marcado por muita dor, mas a dor física, mesmo sem masoquismo, a gente aguenta, ao contrário da afirmação de François Truffaut, citando… Não sei quem… em Jules e Jim. “Poupe-me da dor física, meu Deus, que da moral me ocupo eu.” O físio, Carlos, diz que meu condicionamento nunca esteve melhor, coração e pulmão estão bem – meu problema está nas vias altas, como vive repetindo o pneumo. Se não vou morrer do coração nem do pulmão, vou morrer de quê? Tristeza, provavelmente. Tive algumas decepções, para as quais devo ter contribuído, mas que me abalaram muito nos últimos dois anos. Tem a ver com o tempo, acho. Se tudo isso tivesse ocorrido anos atrás talvez tivesse me recuperado muito melhor. Sempre achei que o tempo jogava a meu favor. Num outro contexto, houve um momento, no jornal, em que de forma deliberada um editor tentou me calar. Eu sabia que era só uma questão de tempo. Pode parecer arrogância, mas sei que ninguém – bem, talvez alguém, mas quem? – possui a minha capacidade de trabalho e era só uma questão de tempo para tudo voltar ao normal, pois ele terminaria arreglando e eu retomaria meu espaço. Não deu outra. Mas agora estou com 74, indo para os 75 anos e, embora todos digam que estou ótimo, que pareço menos, ando me sentindo velho. O tempo parece começar a jogar contra mim, acho. Estou falando do particular, mas tem o geral, o horror dessa guinada que o mundo deu à direita. Talvez eu esteja confundindo as coisas, não creio, mas tem a ver com a dependência cada vez maior das pessoas das redes sociais, com suas brigadas digitais que transformaram as fake news num exercício permanente. Ao rejeitar esse admirável (?) mundo novo, sei que corro o risco de me isolar, e é o que está ocorrendo. Esse post que está saindo tão autocrítico, tão para baixo, não é aleatório. Tem uma razão de ser. É tempo de Oscar, sempre um período de muito trabalho, e ontem eu estava à tarde, no jornal, quando minha filha me localizou. A Angel, cachorra dela, a quem se referi tantas vezes no blog como minha neta, estava no hospital veterinário. Há meses Angel vinha tratando um tumor no cérebro que deu metástese, agravada por um quadro de pneumonia. Como não tinha volta, e ela estava sofrendo, a morte foi apressada. Lúcia e Fabiana estavam arrasadas, mas eu permaneci com a Angel, durante o procedimento. Por que? Porque eu não queria que ela morresse sozinha. Fiquei ali, acariciando-a e dizendo seu nome, até que tudo terminou. Foi rápido, e agora estou escrevendo esse post, e chorando. Pensando em Platero, no céu de Moguer. ‘Doce Platero, feliz em teu prado de rosas eternas.’ Num País de tanta desigualdade e violência, em que a indiferença dos ricos e a insensibilidade dos governantes produz estatísticas alarmantes – jovens mortos nas periferias, desmatamento, exclusão -, me parece absurdo que eu esteja aqui chorando a morte da Angel. Não, não é. Mil e uma ideias estão rodando na minha cabeça, desde a legalidade da eutanásia em animais até essa inércia que faz com que a revolta dos excluídos só exploda no cinema – em Bacurau, Coringa, Os Miseráveis e Parasita. Pronto, misturei tudo, mas vocês sabem – tanto quanto cinéfilo, sempre fui cinófilo.