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Panis et circenses, as pessoas da sala de jantar vão ao teatro

Luiz Carlos Merten

21 Janeiro 2019 | 09h44

No cinema, sou macaco velho. Há tanto tempo expresso minha opinião sobre filmes que já estabeleci um padrão – acho. Sou visceral na defesa daquilo em que acredito, seja blockbuster ou o mais independente filme autoral. Também falo mal, mas tento não ser um inimigo na trincheira. E atores, diretores, roteiristas sabem sempre que podem contar comigo como jornalista. Mas, no teatro, é mais difícil. Gosto de ir à luta para defender o que me surpreende, maravilha, e repudio o que me parece fake, supervalorizado. Casos extremos têm sido o Navalha na Carne Negra e essas instalações que Bia Lessa faz e são tratadas como grande teatro, mesmo não sendo. Cadê a poiesis, gente? Mas eu realmente me embaralho quando vou ver um espetáculo como Ele Ainda Está Aqui. Talvez devesse silenciar, mas não consigo. Me parece que seria covardia. Gosto do Sílvio Guindane ator, entrevistei Emilio Dantas no ano passado e ele foi uma simpatia, além de estar casado com Fabiula Nascimento, de quem sou tiete de carteirinha. O próprio Sílvio é casado com Júlia Rezende, ou seja, admiro os casais, não quero melar ninguém. Dizer que foi perda de tempo ver a peça, no sábado à noite, seria mentira. Pois foi um interessante experimento sociológico. Vão me matar, mas o Renaissance é, por excelência, o teatro das pessoas da sala de jantar – Mutantes, Panis et Circenses, 1969. A fina-flor da burguesia que ainda não depauperou. No palco, uma discussão sobre partilha de bens. Três filhos, três (meio) irmãos de diferentes casamentos. Papai nunca me deu atenção e agora, para compensar, quero minha parte. Na plateia, mulheres banhadas de dourado, cheias de brilho. Representatividade zero, nenhum negro. Minto, havia um. O mistério de um filme como Temporada, de André Novais Oliverira, com Grace Passô, está na forma como o diretor e sua magnífica atriz extraem beleza do que é simples e até banal – uma mulher que acaba de se separar une-se a um grupo de combate a epidemias (à dengue) numa cidade, Contagem, da Grande BH. No palco do Renaissance, nenhuma elaboração. Só a banalidade. O público vestiu-se como para uma festa, riu, aplaudiu. Os atores disseram superficialmente o texto superficial. O filho que reclamava do pai por não responder a suas cartas agora não tem tempo de responder às cartas que o próprio filho lhe envia. Mensagem captada, foi todo mundo embora feliz. Família por família, e com menos de um mês de governo, as histórias do clá Bolsonaro são muito mais picantes, mesmo que eu não esteja certo de que, como teatro, dessem um espetáculo muito melhor.