As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Palmas para Roberto Farias. E por que não ‘ressuscitar’ Selva Trágica?

Luiz Carlos Merten

01 de setembro de 2015 | 10h30

Estou de volta em casa. Cheguei ontem pela manhã e passei o dia no jornal. Tinha matérias, entrevistas. À noite fui ver Entrando numa Roubada. Estou até agora tentando entender o conceito do filme de André Moraes, que reúne um monte de gente de qwue gosto (Debora Secco, Júlio Andrade, o irmão dele, o Bruno etc). Daqui a pouco sai a Première Brasil, grande vitrine do cinema brasileiro no Festival do Rio. Encontrei ontem na pré-estreia do Roubada Walkiria Barbosa e Marcos Didonet, e ele já me deixou nos cascos ao dizer que é a melhor Première Brasil em anos. Espero que seja, porque a seleção de inéditos brasileiros em Gramado esteve sofrível, sinal de que produtores e diretores estavam se guardando para Brasília ou o Rio. Estou louco, desde Nova York, para acrescentar dois posts. Serão os próximos. Vou fechar esse com uma referência aso Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, que ocorre hoje às noite. Não sei onde será, apenas que é no Rio. Também não sei quem são os indicados, porque não recebi a lista e, se recebi, o e-mail me passou despercebido (o que não é muito difícil). Não se trata de nenhum desprezo por possíveis indicados e, muito menos, pelo cinema brasileiro. Para prová-lo, quero lembrar, e isso a assessoria me informou, que Roberto Farias recebe hoje à noite uma homenagem especial, o grande prêmio do cinema brasileiro. Só quem viveu os anos 1960 sabe o que foi a polarização daquela época. Havia o Cinema Novo e o resto. Em Porto Alegre, não éramos glauberianos de carteirinha e meu amigo Vilmar Ledesma localizou um quadro0 de cotações da imprensa gaúcha da época em que Glauber, o mito, foi contemplado com um monte de bolas pretas, uma minha, inclusive. Não sei por qual filme, mas, com o tempo, cheguei a uma convivência bem estimulante (para mim) com ele. Ainda não degluti A Idade da Terra, mas, quando Glauber morreu, eu estava em Zero Hora como redator de ‘Mundo’. Tenho a impressão de que era fim de semana, sábado ou domingo, porque não havia ninguém de cinema e eu pude publicar um texto sobre ele. Meu primeiro texto de cinema em Zero Hora, aonde já estava há cinco ou seis anos. Até onde me lembro, era meu acerto de contas – minha rendição? -, bastante elogioso. A estrutura bipolar, o transe. Deus e o Diabo, Terra em Transe, O Dragão da Maldade, Di me interessam, apaixonam. O resto, passo. Naqueles anos, no Sul, minha geração, e Jefferson Barros à frente, preferia o cinema comercial, como opção estética, de Roberto Farias. Ele veio da chanchada e, por volta de 1960, iniciou o que não deixa de compor uma trilogia, formada pelos filmes Cidade Ameaçada, Assalto ao Trem Pagador e, meu preferido, Selva Trágica. Descobri somente outro dia, ao fazer não sei qual pesquisa no álbum com a história de Cannes, que Cidade Ameaçada concorreu em 1960, mas era o ano de A Doce Vida, e Federico Fellini levou a Palma de Ouro. Com Cidade Ameaçada, Roberto Farias iniciou uma espécie de crônica sobre a violência urbana no Brasil que se modernizava. Veio na sequência Assalto, baseado num fato que provocou sensação na crônica policial da época. Assalto era/é um filme que (ainda) apresenta grande virtuosismo narrativo ‘clássico’ e ainda propõe uma sólida reflexão sobre a divisão social, o embate entre o morro (Tião Medonho/Eliezer Gomes) e o asfalto (Zé Grilo/Reginaldo Faria). Pouco antes, Jorge Illeli fizera Mulheres e Milhões, outra proposta, mais artificiosa, de policial brasileiro. Com Assalto, o social, o realismo de cena, tudo era forte, verdadeiro. O filme fez grande sucesso de público e terminou integrado, meio na marra, ao Cinema Novo.  Lembro-me, na antiga revista Senhor, de um artigo muito interessante que defendia a tese de que não apenas Roberto Farias, mas também Anselmo Duarte (O Pagador de Promessas) e Ruy Guerra (Os Cafajestes), estavam quebrando a escrita de que o português do Brasil não era uma língua de cinema. Acreditem, meninos e meninas, havia isso, essa mentalidade, naqueles anos. Roberto Farias continuou exercitando a língua oral em seu maior filme, mas Selva Trágica, ao contrário dos anteriores, foi um fracasso de público que comprometeu a carreira do diretor (e o levou a fazer comédias para se recolocar nas selas, Toda Donzela Tem Um Pai Que É Uma Fera). Selva Trágica é viscontiano. Numa plantação de erva-mate, na fronteira paraguaia – e há um tráfico de palavras e expressões -, os homens trabalham como escravos e as mulheres são exploradas como objetos sexuais. Reginaldo Faria apaixona-se por Rejane Medeiros linda, linda). Rebela-se – como Spartacus, no épico de Stanley Kubrick escrito pelo comunista Dalton Trumbo. Já falei mil vezes (quase isso) com Roberto Farias sobre Selva Trágica. Me parece urgente restaurar e recuperar o filme, ressuscitá-lo para que eu mesmo possa conferir se é tão imenso como me parece, ou se virou algo mítico no meu imaginário. Roberto Farias fez depois a trilogia com Roberto Carlos e, no começo dos anos 1980,  denunciou os crimes da ditadura militar em Pra Frente, Brasil. O filme teve problemas com a censura, foi premiado (em Gramado), mas, do homem e artista que havia feito Selva Trágica, sempre tive o sentimento – eu! – de que era um ato de contrição, um mea-culpa, e teria sido mais honesto se Roberto tivesse lembrado que naqueles anos duros ele também estava mandando tudo o mais para o inferno, com RC. Roberto Farias foi guerreiro na defesa do cinema brasileiro. Produtor, presidente do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica e o primeiro cineasta a dirigir a Embrafilme. Fez boa TV – As Noivas de Copacabana, O Memorial de Maria Moura. Hoje à noite, a Academia Brasileira de Cinema vai honrar Roberto Farias. Eu, se lá estivesse, ia me levantar para aplaudi-lo. Ia aplaudir especialmente o diretor daqueles três filmes inscritos a ferro e fogo no meu imaginário. Um Visconti brasileiro, que tal?